A Sociologia e os #NoVax

Hoje, mais do que nunca para a minha geração, se vem discutindo a dicotomia dos signos de liberdade individual e de liberdade coletiva. Para alguém que nasceu após uma das fases mais negras da história de Portugal, período esse em que a liberdade de expressão e de pensamento era riscada por impostores e impositores de um autoproclamado bem comum, o bem da partilha vazia, é complexo - e até pode ser julgado pouco responsável - considerar o que é o correto nestes tempos difíceis.

de Raquel Batista


Peter Bruegel, “Triunfo da Morte”, 1562



Vamos por partes.



1. A sociologia e a liberdade



Optei por trazer à discussão Jürgen Habermas e a “Técnica e Ciência como «Ideologia»”, se bem que se escolhesse protagonizar Herbert Marcuse teria outro condor. Por isso é que o Crónico se distingue pelo diálogo aberto, sente-te bem-vindo.



Introduzo, então, as ideias sociológicas de Habermas que considero serem da maior relevância para ajudar a compreender no que é que esta tese sociológica se interliga com a liberdade. Em “Técnica e Ciência como «Ideologia»”, Habermas procura uma justificação para o caráter dominador da técnica e da ciência e tem por base a diferenciação entre “ação racional teleológica” e “ação comunicativa”.



Nas Ciências Sociais e Humanas, a teleologia remete para uma finalidade da ação humana. A “ação racional teleológica” tem em vista a consumação de objetivos, mediante uma relação fim/meios e observa-se no caso do sistema económico ou do aparelho estatal. A “ação comunicativa” baseia-se em normas de vigência obrigatória, postas em prática na comunicação linguística quotidiana. A ação comunicativa é, para o autor, um tipo de ação social orientada para o entendimento, entendimento esse que, se for bem-sucedido, conduz a um acordo entre os intervenientes, que representa uma convicção comum.



Como é notório em todos os países, não só em Portugal, reflete-se uma falta de entendimento sobre a toma da vacina.



Habermas distingue duas tendências de racionalização no desenvolvimento das sociedades modernas: a racionalização a partir de baixo e a racionalização a partir de cima. A primeira corresponde à expansão dos subsistemas de ação teleológica a todos os setores da sociedade e a segunda traduz-se na substituição das legitimações tradicionais pelas ideologias. O papel legitimador destas exerce-se numa dupla função: apresentam-se como justificações científicas da organização social e mantêm funções legitimadoras que subtraem as relações de poder existentes à análise e à consciência pública, isto é, todas aquelas formas de organização do mundo em que o individuo se cola no primeiro plano.



2. O que podemos aprender com “A Peste” de Albert Camus



O livro situa-se da cidade de Orã, litoral da Argélia, onde se vive um surto de peste bubónica em pleno século XX. A história é centrada no médico Bernard Rieux e na sua rotina, que varia entre visitas a doentes, atendimento no hospital, a relação com a sua mulher doente e com a sua mãe. Algo de surpreendente acontece: aparecem ratos mortos em todos os cantos da cidade.



Um dia, Rieux é chamado para socorrer um homem que sofre de uma terrível febre, inchaço nos gânglios e manchas vermelhas pelo corpo. A possibilidade da doença desse homem ser peste era nula, mas o desenrolar dos fatos, das mortes dos ratos e do aumento dos casos de febre levanta essa opção e Rieux é chamado pelas autoridades para participar do comité que decidirá quais as medidas que deverão ser tomadas. Logo fica confirmado que a famosa peste bubónica, que assolou a Europa na idade média matando um terço da população, estava de volta.



As primeiras medidas foram o encerramento da cidade e do porto e é aí que tudo muda.



Os cidadãos assolados por uma doença altamente agressiva e transmissível ainda precisam conviver com o isolamento do mundo - alguns conseguem, outros não. As medidas sanitárias tornam-se supérfluas diante do aumento expressivo no número de mortos.


Já não havia então destinos individuais, mas uma história coletiva: a peste e sentimentos compartilhados por todos.



O maior sentimento era o de separação e o exílio, que resultava em medo e revolta, tal e qual o que sentimos desde 2020.


Para Camus, o ser humano não passa de um pião do seu próprio destino. Não importa o que façamos, sempre estaremos aquém do que o mundo nos mostra. Este livro atravessou o nosso imaginário e tornou-se nos últimos tempos um dos livros mais vendidos em todo o mundo.



3. Um dos perigos dentro do grande perigo: a desinformação



Um dos maiores obstáculos que prevalece no debate público e causa confusão pelo excesso de informação é a própria desinformação.



A pandemia tem sido acompanhada por uma enorme vaga de informações falsas. As informações enganosas sobre questões de saúde, as mensagens fraudulentas com alegações falsas, as teorias da conspiração e as fraudes põem em risco a saúde pública. Observamos esforços das instituições pelo mundo para o seu combate, mas não são suficientes. Chegam-nos, aos nossos aparelhos de bolso, vídeos, opiniões, notícias desastrosas que levaram ao fim de vidas de que não sabemos o seu número, nem os seus rostos.



A desinformação sobre as vacinas, a falta de literacia médica (e de literacia em outras áreas, também) rodopiam numa infinita falta de lógica e de ponderação.



A verdade, e ainda bem, é que toda a gente tem direito à sua opinião e à sua expressão, mas a ausência de precaução pela vida do outro tem um preço ingrato para o olhar.



4. O que realmente importa?



Acabados os pontos que considero mais importantes nestes tempos de difusão do que é ou não verdade e do que é o melhor a fazer, transporto este texto para algumas hipóteses que levanto sobre a importância de um esforço maior de combate aos medos e à liberdade individual sobreposta à coletiva.



É certo que numa sociedade que se diz plural, a liberdade individual é um dos elementos mais imponentes da vida do Homem, mas até onde chegamos com esta discussão? Será que existem bons e maus, em que os bons são aqueles que tomam a vacina e os maus os que a recusam? Parece-me todo este ponto de vista bastante infantil, mas é o que se tem debatido na opinião pública.



A resposta é que o importante aqui é a valorização e a confiança na ciência. Depois de tantos séculos, de tanto esforço, de tantas conquistas pelo Homem para melhorar a vida humana, qual é a dúvida de que este é o momento para confiarmos em quem estuda incansavelmente e trabalha incansavelmente para melhorar a forma de vida dos demais?



Existem sim perigos que nos espreitam - a desinformação é um desses, portanto, é preciso um reforço no esclarecimento da informação que passa, como já opinei.



Contudo, parece-me que o grande perigo é sim o esquecimento da vida em comunidade, o seu modus operandi, o que também podemos chamar de empatia.


A vacinação tem uma função preventiva: evita o desenvolvimento da doença e atenua os sintomas caso surjam. Para além dos benefícios a nível individual, a vacinação de uma elevada percentagem da população (taxa de cobertura vacinal elevada) dá origem à tão falada imunidade de grupo, responsável, em parte, pelo controlo e/ou erradicação.



Este é apenas um ponto de vista de alguém que quer voltar a sentar-se com um grupo de amigos sem receios individuais e coletivos, e que confia na toma da vacina.