A Senhora dos Anéis

Diria que poucas pessoas à face da Terra (não sei se se aplica às que foram recentemente ao espaço) podem dizer que tiveram uns últimos anos fáceis.

de Leonor Carapuço

Fonte: NZ Herald


No meio da azáfama social, económica, climática, política e sanitária dos útlimos tempos, houve uma líder de um país no Pacífico que andou especialmente ocupada. Refiro-me a Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, cuja vida decorreu mais ou menos desta forma:

2017 - Eleição da primeira-ministra trabalhista Jacinda Ardern.
2018 - Jacinda Ardern torna-se a primeira líder de um país a ser mãe no poder desde a primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, em 1990. Torna-se também a primeira líder a entrar em licença de maternidade enquanto no poder. Como se não bastasse, foi a primeira vez que foi mãe.
2019 - Um supremacista branco assassina 51 pessoas em duas mesquitas em Christchurch.
2020 - Pandemia mundial. Ardern faz 40 anos. O vulcão Whakaari entra em erupção, resultando em 21 mortes. E o país vai a eleições, nas quais o seu partido de centro-esquerda ganha por 49,2%.

Esta foi a primeira vez que um partido neozelandês ganhou com maioria desde a implementação do sistema eleitoral de representação mista proporcional (MMP) em 1996. É um acontecimento fora de série que só podia acontecer a uma política fora de série como Jacinda Ardern. O que é que faz desta primeira-ministra tão especial?


Aparentemente nada, se olharmos para os seus primeiros anos de vida. Nasceu numa família mórmon, numa pequena cidade “kiwi” perto das filmagens da triologia "Senhor dos Anéis" (chegando mesmo a participar num casting quando era nova). Licenciou-se em Ciências da Comunicação, mas ainda antes de terminar, aos 17 anos, já se tinha filiado no Partido Trabalhista, inspirada pela memória de “crianças sem sapatos ou sem nada para almoçar” na sua terra natal.


Muitos académicos dissertaram sobre a fonte da sua popularidade. As principais características apontadas são a autenticidade e a empatia, que, nas palavras da sua mentora e ex-primeira-ministra Helen Clark, «faz com que as pessoas pensem “bom, eu não compreendo porque é que o governo fez isto, mas eu sei que ela o fez pelo nosso bem”. Há um alto nível de confiança nela que se deve à sua empatia».


A sua liderança emocional esteve presente nalguns dos momentos mais trágicos da recente história neozelandesa. A gestão da pandemia foi um dos momentos fulcrais em que deu provas desta liderança, cuja eficiência contribuiu grandemente para a sua reeleição em outubro de 2020.


Conforme explica Suze Wilson da Universidade de Massey, Jacinda Ardern, na forma como geriu a pandemia, fez uso das três características que constituem uma boa liderança: soube dar indicações claras, foi empática e deu propósito ao povo neozelandês.

Propósito esse que não foi pouco ambicioso: a Nova Zelândia não procurou apenas combater o vírus, fez por eliminá-lo. Fronteiras encerradas e políticas de extrema contenção aquando o surgimento de novos casos permitiram que a vida neozelandesa não sofresse uma quebra tão grande na sua rotina. À data a que escrevo, 23 de julho de 2021, este país de 5 milhões de habitantes registou um total de 2.855 casos e 26 mortes por covid-19.


A primeira-ministra recorre frequentemente às redes sociais para explicar de forma transparente as medidas tomadas, para mostrar empatia pelo sacrifício dos cidadãos pelo bem comum e para incluir-se entre eles. Não é incomum começar os seus diretos no Facebook, de camisolão desportivo, com frases como “Kia Ora a todos. Estou neste momento em frente a uma parede branca da minha casa por ser o único cenário que não está desarrumado”.


Sabe usar o humor nos momentos apropriados. Sabe também escolher as palavras certas em momentos fúnebres e dolorosos, como foi o atentado de Christchurch. Sobre as vítimas, declarou “elas somos nós”. E acrescentou:

"A Nova Zelândia foi escolhida porque era segura. Porque não era lugar para ódio ou racismo. Porque nós representamos diversidade, bondade, compaixão. Casa para aqueles que partilham os nossos valores. Refúgio para quem precisa." [e, dirigindo-se ao atirador] “Tu podes ter-nos escolhido. Nós rejeitamos e condenamos-te completamente.”


As três características referidas por Suze Wilson - transparência, empatia e sentido de propósito - tornam Ardern numa primeira-ministra humana. Diminuem a distância entre a esfera política e o cidadão comum e, ao mesmo tempo, criam espaço para o erro e para a compreensão.


Jacinda Ardern está longe de ser perfeita. Não é uma reformista estrutural, chegando a ser criticada por não cumprir com muitas das propostas sociais com as quais se tinha comprometido durante a sua primeira campanha. É uma líder para tempos incertos, que apela a pessoas fora do seu campo político e na qual as pessoas podem confiar.


A Nova Zelândia teve sorte em ser liderada por Jacinda Ardern durante estes tempos difíceis. No mundo ocidental, onde decresce a confiança nas instituições políticas e aumenta o discurso de ódio nas redes sociais, se calhar o que faz falta é um pouco mais de empatia, um pouco mais de transparência e um pouco mais de Ardern.