A quem pertencem as emoções


Produzem-se, assim, dois estereótipos de género: o homem racional e a mulher emocional. Esta «divisão» das emoções pelos dois géneros é conseguida através de um processo de transmissão, assimilação e reprodução de determinadas emoções «naturalmente» mais femininas no caso das mulheres ou «naturalmente» mais masculinas no caso dos homens




Ensaio de Cecília Faria Estudante de Sociologia, NOVA-FCSH

Comento com a minha melhor amiga um texto que li sobre «genderização» das emoções. É um texto que aborda as questões de género relacionando-as com a produção social das emoções. Há coisas que nós achamos que devemos sentir sem o sabermos. Há emoções que devem ser expressas em determinados momentos, outras que não devem ser reveladas em momento algum e nós, no nosso íntimo, temos estas regras todas interiorizadas e sabemos automaticamente como agir de acordo com elas. As emoções são à partida algo tão pessoal e tão privado, aquilo que cada mulher e cada homem tem talvez de mais íntimo, que nunca nos ocorre sequer pensar socialmente sobre elas. Mas a vivência das emoções e aquilo que sentimos faz parte de um imenso processo de binarização do mundo e da sociedade, de categorização das figuras feminina e masculina.


Isto significa que a desigualdade entre os homens e as mulheres (e a consequente dominação dos primeiros sobre as segundas) também encontra uma forma de reprodução na própria expressão e vivência emocional quotidianas de cada género.


Existe, efetivamente, na nossa sociedade, uma padronização das emoções da figura feminina e da figura masculina, a par com uma normatização do modo como essas mesmas emoções devem ser manifestadas e em que situações é correto fazê-lo. Porém, apesar de este processo de normatização emocional existir, ainda olhamos para as emoções como algo característico e, até, natural de cada género. Isto torna o campo das emoções uma dimensão ainda mais suscetível de permitir reproduzir as diferenças de género. Mantém-se a crença fortemente enraizada e disseminada de que a nossa vivência emocional, a maneira como nos expressamos e o que escolhemos expressar são coisas que acontecem naturalmente. Desta forma, sendo consideradas naturais, estas emoções normatizadas produzem uma expectativa em relação ao papel do homem e em relação ao papel da mulher.


Ao homem são atribuídos os sentimentos relativos à agressividade, à ambição e à competitividade, enquanto que à mulher são reservadas a sensibilidade, o afeto e a ternura – emoções que tipicamente a remetem para uma posição de fragilidade, impotência e, sobretudo, passividade. Contrariamente, a figura masculina é elevada a uma condição de virilidade e poder.


Produzem-se, assim, dois estereótipos de género: o homem racional e a mulher emocional. Esta «divisão» das emoções pelos dois géneros é conseguida através de um processo de transmissão, assimilação e reprodução de determinadas emoções «naturalmente» mais femininas no caso das mulheres ou «naturalmente» mais masculinas no caso dos homens. Foi precisamente através da interiorização destas diferenças emocionais entre os dois géneros que se tornou possível remeter a mulher para a esfera privada (a casa e a família), impedindo-a de dominar quaisquer parcelas da esfera pública. Estas últimas ficaram totalmente entregues às mãos da figura masculina que, segundo este modelo de genderização das emoções, possui os atributos emocionais necessários (a contenção e a racionalidade, mas, ao mesmo tempo, a agressividade, a ambição e a dureza) para vingar e ser bem-sucedida, conseguindo assumir uma posição de chefia e poder na esfera pública.


Ilustração da autora

No entanto, a construção da expressão e da vivência emocional do género feminino está repleto de contradições e paradoxos. O primeiro paradoxo diz respeito às exigências contraditórias sobre as quais o papel emocional da mulher assenta: deve apresentar-se sensível e carinhosa, mas, ao mesmo tempo, essa sensibilidade e essa delicadeza, que lhe são exigidas e expectáveis da sua parte, são vistas como representando um lado demasiado emocional, e até histérico, que deve ser refreado e controlado. Para além disto, ele é interpretado como uma característica da mulher que a torna facilmente suscetível a manipulações. Esta assunção de uma excessiva sensibilidade feminina, de uma expressão e vivência demasiado emocionais, apresenta-se como um mecanismo de desempoderamento da mulher e funciona, como já referido, como uma forma de a impedir de assumir o controlo de qualquer domínio da esfera pública, precisamente por ser considerada incapaz. Simultaneamente, atua como uma forma de constante descredibilização dos seus sentimentos, associando-lhes automaticamente uma ideia de fraqueza e exagero. O segundo paradoxo relaciona-se com o primeiro e enquanto que expõe a mulher na sua fragilidade e brandura, ao mesmo tempo, apresenta-a com uma força incontrolável, muito intensa emocionalmente e sempre pronta a explodir.


Passeamos pela Avenida da Liberdade enquanto eu explico estas coisas à Matilde. Ela vai concordando comigo e, à medida que conversamos sobre isto, identificamos alguns destes problemas na nossa própria vivência emocional. Chegamos à conclusão, por exemplo, que constantemente desvalorizamos o que sentimos. O nosso sofrimento é sempre exagerado e dramático. O mais triste, comentamos as duas, é que já chegou a um ponto em que deixou de ser necessário um elemento exterior que nos acuse de dramatismo ou excessiva fragilidade, nós próprias fazemos isso sozinhas. Condenamo-nos pelo que sentimos e pelo nosso «exagero» e «dramatismo» constante.


Continuo a falar-lhe sobre o texto que li. É ainda importante notar a centralidade que o papel da mulher «emocionalmente controlada» assume no normal funcionamento da sociedade e na manutenção das estruturas tradicionais, explico-lhe. Uma vez que é a figura feminina que socialmente se espera que assuma o controlo do núcleo familiar, ou seja, da esfera privada, o seu domínio sobre as emoções e a histeria torna-se fundamental para que consiga assumir esse controlo, assegurando e mantendo a estabilidade e a coesão da família. Ela tem de assegurar a estabilidade e a coesão do núcleo familiar, uma vez que este representa a base segundo a qual se edifica a sociedade. Isto significa que ela se torna também responsável pela própria coesão e estabilidade social.


Este processo de genderização das emoções tem efeitos sobre as mulheres e sobre os seus avanços em termos de influência e participação na esfera pública: continuando a ser permanentemente vinculadas a uma vivência «demasiado emocional e excessivamente dramática», de passividade e submissão, as mulheres têm dificuldade em assumir uma postura mais assertiva e austera e, quando o fazem, sentem-se culpadas por não corresponderem a esse modelo feminino de sensibilidade e candura que lhes foi incutido desde pequenas. Para além disto, o desejo e a ascensão efetiva das mulheres a uma posição de destaque na esfera pública é muitas vezes acompanhada de um sentimento de culpa e da ideia de que estão a falhar enquanto mães e «cuidadoras do lar».


Lembramo-nos de uma palestra sobre a desigualdade de género a que assistimos no nosso décimo segundo ano. No final, a oradora disse-nos que a maior dificuldade da luta feminista está em conseguirmos travá-la dentro das nossas casas e no nosso interior. Porque é aí que se torna mais difícil apercebermo-nos do que está errado. Infelizmente, o machismo não se reduz aos aspetos visíveis da vida quotidiana, ao facto de o marido obrigar explicitamente a mulher a ficar em casa sem poder ir trabalhar, por exemplo. As formas de machismo mais difíceis de combater escondem-se nos pequenos gestos e nas pequenas decisões do dia a dia.


Hoje em dia, parece que o debate público se cingiu às redes sociais, onde ninguém está disposto a estabelecer um diálogo profícuo e uma discussão profunda sobre as coisas. Torrentes de insultos e ondas de indignação varrem o Facebook, o Instagram e o Twitter sem que se debata verdadeiramente alguma coisa. As pessoas não estão interessadas em ir ao fundo das questões e o debate reduz-se às experiências pessoais de cada um, ficando apenas pelos aspetos mais superficiais dos problemas. Numa das minhas primeiras aulas da faculdade um professor disse-nos: «Vivemos numa sociedade em que as pessoas já não discutem com base em factos, mas com base nas suas próprias experiências pessoais. Hoje em dia, toda a gente acredita que aquilo que viveu lhe dá legitimidade suficiente para falar sobre tudo».


As formas de dominação de um grupo sobre outro ocultam-se no normal funcionamento da sociedade, fazem-nos acreditar que se tratam de processos «naturais». Aqueles que acreditam que Portugal não é um país estruturalmente machista têm de perceber que o mundo não se faz só de indivíduos e que existe uma produção social da realidade, da qual nenhum de nós se consegue ver livre sem um imenso trabalho de questionamento e autocrítica constante.