A perceção das mulheres na sociedade

Os chamados “atributos femininos” tanto servem para justificar a instrumentalização das mulheres segundo um sentimento de posse por parte dos homens, como para denegrir a sua emancipação e a crescente relevância de que dispõem.

Crónica de Sofia Escária


Eram 23h30 de domingo, estava a passar no Marquês de Pombal a caminho de casa. Ia distraída quando, de repente, me deparei com um homem a masturbar-se a menos de um metro de mim. Não havia iluminação, pelo que demorei a perceber o que se estava a passar e a sobressaltar-me. Quando trocámos olhares gemeu alto e acelerou a gesticulação, assustei-me e fugi, enquanto ele me chamava.


Felizmente nunca me tinha acontecido, apesar dos inúmeros relatos, só tinha sido alvo de piropos ou buzinadelas, como todas as mulheres. Mal fugi, pensei no que deveria fazer. Avisar a polícia, procurando prevenir que se repetisse com outra pessoa ou adquirisse contornos piores? Com efeito, depois de muito ponderar, telefonei. Não, contudo, sem me sentir mal, sem pedir desculpa pelo incómodo ao senhor que me atendeu, ou mesmo até sem eu própria minimizar a situação e expô-la de uma forma condescendente, como se fosse errado reportar e como se o problema fosse meu.


No resto do percurso continuei inquieta e apreensiva, com vergonha por não estar de consciência tranquila por ter ligado e pela introspeção que fiz e culminou neste desabafo. Acabei por contar este episódio a várias pessoas, sempre com receio da sua reação, tentando prever e retirar uma conclusão acerca da mesma. Falei com os meus pais, amigos, irmãos mais novos e, de facto, ouvi um pouco de tudo, medo, indulgência, surpresa, recriminação e até troça pela minha atitude e pela preocupação. Em todas as conversas, independentemente das diferentes respostas, a sensação de desconforto foi permanente.

A normalização do piropo como um “elogio” ou um comentário pelo qual devemos estar gratas subsiste de forma invasiva nos nossos dias. Não podemos estar à vontade fora de casa sem que os oiçamos de força depreciativa (por muito que julguem ter o efeito oposto), nos deparemos com olhares indevidos ou até mesmo abordagens mais agressivas.

Recentemente, um chatbot automático na aplicação Telegram tem sido utilizado para manipular indevidamente fotografias e vídeos de mulheres através de inteligência artificial, partilhando-as em canais de comunicação de teor sexual. Certos tipos de roupa ou comportamento alegadamente propiciam as violações e o assédio, bem como o relacionamento com muitos homens, que retira a credibilidade e fundamenta o conselho “não sejam violadas” ou a observação de que “estavam a pedi-las”. Como se fosse uma escolha ou uma consequência e efetivamente o merecessem. Como se a autodeterminação de uma mulher pudesse de alguma forma isentar os homens dos seus atos e defender este tipo de abusos. Porque é que o ónus não é colocado neles, para que “não violem”?


Por outro lado, quando questionadas acerca do que fariam se não existissem homens durante um dia, as mulheres manifestaram pretensões tão simples e legítimas como passear, fazer desporto e levar os animais de estimação à rua durante a noite, ou vestir-se consoante o seu entendimento, questões que deviam ser banais no nosso quotidiano.


Os chamados “atributos femininos” tanto servem para justificar a instrumentalização das mulheres segundo um sentimento de posse por parte dos homens, como para denegrir a sua emancipação e a crescente relevância de que dispõem. Vulgarizam-se os preconceitos e a estigmatização de características associadas a cada género para distinguir homens fortes, assertivos e confiantes de mulheres histéricas, disruptivas e prepotentes. A ambição e a própria educação adquirem nuances muito distintas consoante o género.

Homens com quatro filhos precisam de ser promovidos porque têm uma família para sustentar, mas mulheres podem não o ser precisamente por esse motivo. A premiação de uma mulher por vezes ainda é ordinariamente associada a favores sexuais, o mesmo não se aplica a um homem. Evoluímos nesse aspeto, sem dúvida, mas será suficiente? A solução não deve passar por impor quotas de representatividade, mas efetivamente intervir de forma estruturada sobre esta matéria.


Debrucemo-nos sobre exemplos de sucesso e o escrutínio de que são alvo, quer pela questão do género referida, quer pela aparente necessidade de provarem que estão à altura dos desafios que lhes são colocados - provação essa que é muito diferente no caso masculino. Jacinda Ardern foi reeleita primeira-ministra com uma maioria histórica desde a implementação do atual modelo de eleições na Nova Zelândia. A comunicação social destaca a liderança da governante durante um ataque terrorista, uma catástrofe natural e a atual pandemia, atribuindo o seu sucesso à “compaixão e bondade” que demonstrou, necessitando, contudo, de mais do que empatia para permanecer nas boas graças face à recessão económica que o país atravessa. É, inclusive, uma das líderes mais jovens do mundo, a terceira do país e a segunda na história a ter um filho durante o seu mandato.


Salientam-se estes aspetos em relação a uma das várias mulheres que integra o pacote de governantes que melhor lidaram com a emergência da COVID-19. Alega-se que a chave para o seu êxito foi comum: a confiança, a assertividade, a competência na inclusão e desenvolvimento da tecnologia, mas, acima de tudo, e aquilo que supostamente as distingue mais dos homens, a autenticidade com que se dedicaram e expressaram afeto. Inúmeros artigos exploraram a forma como estas líderes não se coibiram de manifestar publicamente uma preocupação mais enternecedora por todos, numa abordagem mais pessoal e personalizada de governação.


Por outro lado, quando nos referimos ao estabelecimento de referências como Ruth Bader Ginsburg ou Kamala Harris, a sua notoriedade advém, não só do percurso extraordinário que percorreram e tudo o que alcançaram por mérito próprio, mas, principalmente, por serem pioneiras nas suas conquistas, pelo género, pela raça e representatividade de minorias, muitas delas marginalizadas. Somam-se outros casos a nível internacional que continuam a lutar pela afirmação das mulheres nos cargos mais altos e distintos.


Há cem anos as mulheres ainda não podiam votar nem controlar a sua própria vida. Em pleno século XXI, muitas continuam sem poder, lidam com diferenças salariais consideráveis e injustificáveis, com assédio e violência, com desvalorização e opressão. Num mundo alegadamente civilizado, o conceito de feminismo não devia ter uma conotação pejorativa, mas, pelo contrário, ser amplamente exortado. A mudança de paradigma é cada vez mais urgente e não olha a diferenças, exige a intervenção e o contributo de todos.