A nossa tragédia

Quer seja Costa, Medina, Moreira, qualquer deputado ou qualquer pessoa com responsabilidades políticas em Portugal, cada vez que o assunto é futebol, seguem-se decisões estapafúrdias, sinais de desfasamento da realidade do país, e um certo sentimento de impunidade.

Crónica de Vasco Maldonado


Adoro futebol. Vejo muito futebol, talvez demasiado até. Grande parte do meu tempo é dedicado a ver jogos, a falar e a discutir sobre eles, a pensar no jogo e nos jogadores de que mais gosto. Dito isto, enquanto cidadão português, devo dizer: odeio futebol.


Karl Marx encontrou na religião o ópio do povo, e séculos antes Juvenal falava sobre “panem et circenses”, que o Império Romano usava para fazer o povo esquecer as opções políticas dos seus representantes. No século XXI, em que a secularização e liberalização da sociedade afastaram a religião do poder político no Ocidente, é o futebol que ocupa o lugar do circo para distrair as massas.


E se é verdade que o povo se distrai com a bola, o mesmo se poderá dizer das elites políticas. São presença assídua em camarotes presidenciais, comissões de honra (já lá vamos), comentário desportivo, deslocações da Seleção. O exemplo de Ferro Rodrigues, embriagado pelo apuramento para os oitavos-de-final do Euro 2020, apelando aos portugueses que se deslocassem “de forma massiva” a Sevilha, cidade sinalizada como zona vermelha de covid-19, pinta o cenário como ele sempre foi: a elite política, especialmente a que mais responsabilidade tem, perde qualquer tipo de bom senso e pensamento lógico quando o assunto é futebol.


Talvez se vá provando a tese do sociólogo Émile Durkheim, que teorizava que o ser humano se altera quando passa pelo fenómeno da efervescência coletiva (que pode ser um evento como o rito tribal dos povos aborígenes ou um simples jogo de futebol), perdendo qualquer tipo de controlo sob as suas ações, por ser influenciado por algum tipo de “força externa” que nasce do grupo social presente no evento. Só isso explicaria o que leva pessoas letradas e inteligentes, como obviamente têm que ser o primeiro-ministro António Costa e o Presidente da Câmara Fernando Medina, a aceitarem fazer parte de uma Comissão de Honra daquele que é o segundo maior devedor do BES, Luís Filipe Vieira, investigado, acusado e agora detido por todo o tipo de suspeitas de maus comportamentos fiscais. Vieira tem o mérito (?) de conseguir reunir apoios e amizades em todos os espectros políticos, desde Jerónimo de Sousa a André Ventura, passando pelos deputados Telmo Correia e Duarte Pacheco, que chegaram também a integrar a Comissão de Honra do Presidente (em suspenso) do Benfica. Como explicar que representantes da nação estejam tão à vontade junto de uma das figuras que mais lesou o país nas últimas décadas? Só pode ser mesmo essa “força externa” de que Durkheim falava, que a todos fez perder a noção.


Os problemas não começam nem acabam em Vieira, ou na falta de lucidez de Ferro Rodrigues. Há cerca de um ano, aquando das eleições à presidência do Futebol Clube do Porto, Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal da cidade, foi anunciado como cabeça-de-lista ao Conselho Superior do clube, cargo pertencente aos órgãos sociais, e que Rui Moreira ainda hoje ocupa. Pelos vistos, Rui Moreira também não tem qualquer tipo de pudor em ser associado a Pinto da Costa, culpado de tudo aquilo que já sabemos. Esta semana, a Assembleia da República aprovou (finalmente) o impedimento dos deputados em funções assumirem cargos em órgãos sociais de clubes de futebol. É um passo importante, e que é de louvar, que não seria trágico se não se tivesse ficado pelos parlamentares, e impedisse figuras como Rui Moreira de se envolverem tão promiscuamente com o clube da sua cidade.


Podia ser esta a nossa tragédia. Duas grandes cidades, dois Presidentes da Câmara, três grandes clubes. Tanto Medina como Moreira demasiado envolvidos com Benfica e Porto respetivamente. Só que não ficamos por aí. Em maio, com a pandemia a atravessar uma fase mais calma, o Sporting foi campeão, e os festejos foram inevitáveis. O que não era inevitável foi a má gestão de Fernando Medina de todas as celebrações. O autocarro que não devia ter saído, mas saiu. Os ecrãs gigantes que não deviam ter sido permitidos, mas foram. As barreiras de impedimento de acesso ao Marquês de Pombal, que deviam ter prevenido infeções, mas não promoveram. De Lisboa para o Porto, depois das críticas de Rui Moreira sobre os festejos do Sporting, chegaram os adeptos ingleses para a final da Champions, com privilégios que nenhum adepto português tem desde março de 2020. Se o título do Sporting causou, presumivelmente, uma nova vaga, o mesmo não se verificou no Porto, mas o princípio não deixa de ser quebrado.


Quer seja Costa, Medina, Moreira, qualquer deputado ou qualquer pessoa com responsabilidades políticas em Portugal, cada vez que o assunto é futebol, seguem-se decisões estapafúrdias, sinais de desfasamento da realidade do país, e um certo sentimento de impunidade que só faz com que casos como o de Luís Filipe Vieira se venham a repetir no futuro. É essa a nossa tragédia: o futebol, por muito que eu dele goste, e a sua coexistência com a realidade política e social em Portugal. Alguém imagina onde pararia o país se Portugal se voltasse a sagrar campeão europeu no dia 11 de julho?