"A minha Pátria é a Língua Portuguesa"

Atualizado: 18 de Mai de 2020

"(...) nesta tácita irmandade estabelecida, mantém-se a partilha da história que nos é comum, da língua que aparentemente nos orgulha e, acima de tudo, das disparidades alarmantes que fazem contrastar as necessidades e os recursos disponíveis"

Crónica de Sofia Escária

Estudante de Mestrado de Monetary and Financial Economics - ISEG


Ilustração de Leonor Miranda

Estudante de Arte Multimédia, FBAUL




Cidade da Praia, 20 de julho de 2009.


Decorre a XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), fundada em 1996, na qual se delibera instituir o dia 5 de maio como “Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP”. Outrora denominado apenas “Dia da Cultura da CPLP”, o momento assinala, desde 2005, a primeira reunião entre os Ministros da Cultura de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe que teve lugar no ano de 2000. A resolução sobre a sua institucionalização inicial aclama o reconhecimento de “que a cultura é o fator de maior relevância na unidade dos países que compõem a CPLP”, procurando “comunicar e divulgar os principais factos histórico-culturais dos Estados Membros da Comunidade”.

Com efeito, ao longo dos anos, sucederam-se celebrações e manifestações alusivas a esta comemoração, através das mais diversas formas de arte e expressão artística. Infelizmente, muitas passaram despercebidas e até dissimuladas, ocultando aquela que tem sido a atividade desenvolvida pela Comunidade das luzes da ribalta e do foco da opinião pública.

Em setembro de 2017, uma nova resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas veio encorajar a iniciativa de dedicar um dia a cada língua oficial da ONU e a outras faladas pelo mundo, procurando disseminar a valorização da sua relevância. Nesse sentido, no dia 25 de novembro de 2019, em plena 40ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), foi proclamado o Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado pela primeira vez há duas semanas.


Uma vez mais, poucos deram pela evolução histórica e temporal da consagração deste marco. Menos ainda foram os que o assinalaram de algum modo. Celebrámos, e bem, as nossas mães, o dia do trabalhador e o da liberdade. Enaltecemos a história, mas não nos permitimos envolver verdadeiramente nela. Já nos pronunciámos anteriormente sobre o papel elementar da cultura na nossa vida, e com especial preponderância durante o confinamento, pelo que não nos vamos debruçar novamente sobre o tema nesta breve reflexão. Podemos, pelo contrário, pensar naquele que é o contributo da preservação e disseminação civilizacional da língua de nove Estados-Membro da UNESCO. A língua oficial de três organizações continentais falada por mais de 265 milhões de pessoas em todo o mundo. A língua predominante no Hemisfério Sul do Globo.


Ninguém diria, não é verdade? Dá que pensar. Esta partilha à larga escala de uma das maiores dádivas da nossa existência, a nossa língua, é tida como um dado adquirido e perspectivada como um meio de comunicação quase rudimentar. Contudo, esta “constante” está em permanente mutação e desenvolvimento, sendo alvo das mais variadas adaptações e reformulações – próprias de uma língua viva e pujante, espelho de uma comunidade heterogénea, extraordinariamente rica e diversificada. É esta pluralidade ímpar que escapa aos olhos de muitos e que carece do devido aprofundamento e proliferação.

Em tempos de colonização, os evidentes efeitos nocivos da opressão dos povos, tidos como menos desenvolvidos, eram arduamente refutados pela missão de evangelização e propagação da fé cristã. Julgávamo-nos superiores e dotados de elevada capacidade organizativa e administrativa que justificava a exploração da riqueza natural de muitos, que a ela eram alheios, por poucos que, pelo contrário, a idolatravam. Estabeleceu-se a língua, alastraram-se os hábitos e costumes que rapidamente cederam lugar a outros, mais opulentos e abastados. Séculos passaram e, nesta tácita irmandade estabelecida, mantém-se a partilha da história que nos é comum, da língua que aparentemente nos orgulha e, acima de tudo, das disparidades alarmantes que fazem contrastar as necessidades e os recursos disponíveis para as satisfazer.


Perpetua, de igual modo, ainda que a respeito da solidariedade e do voluntariado, a lógica das missões e da salvação – económica e social, por parte de quem dispõe de melhores condições de vida e assim acolhe quem tem a capacidade de as procurar. Para aqueles que não a possuem, e nem imaginam sequer que ela possa existir, resta a boa vontade, a compaixão e a caridade de desconhecidos ou recém-amigos. Similarmente, perdura a abundância de recursos nos países mais pobres que não usufruem dos mecanismos para os poderem explorar devidamente – ou, alternativamente, que o fazem através das elites minoritárias que os governam, em prejuízo da restante população.


Em tempos de pandemia, lamentamo-nos do isolamento físico e da necessidade de ficar em casa, esquecendo-nos de quem não a tem. Entretemo-nos a experimentar receitas, até a desperdiçar, mesmo sem querer, água e comida, quando tantos morrem a sonhar com elas. Exigimos meios de combate à COVID, porque efetivamente não dispomos dos suficientes e escasseiam os materiais de proteção dos profissionais de saúde. Antes do surto, existiam em Portugal 1142 ventiladores enquanto que, segundo indicam as entidades internacionais, em África, a título de exemplo, eram menos de dois mil no total de 41 países.


Este repto até já aborrece, por todo o lado ouvimos falar dos coitadinhos, dos que menos possuem, dos que mais precisam. Somos convidados a sensibilizar-nos com os seus problemas, que nos parecem distantes e longínquos e que nos chegam, como se fossem ficção, através de notícias, de imagens e de vídeos. Até “está na moda ser solidário” ou dotar-se de uma moral que nos pede que sejamos melhores, pelos outros que não o podem ser. Com muitos deles, como já vimos, partilhamos efetivamente a história e a língua.


Mas afinal, de que serve isso, se não a celebramos e se com ela nada fazemos para os ajudar?