Uísque de Juventa apresenta "A Luz"


Crónica e Pintura de Francisco Gorjão Henriques,

Autor da rubrica Uísque de Juventa

Estudante de Design Gráfico na University of the Arts London




A Luz


Quando nos lembramos de uma memória inevitavelmente nos lembramos de onde estávamos, o lugar fica quase sempre guardado mesmo quando nos lembramos de um acontecimento na história da humanidade.

O meu avô sabe onde estava aquando o 25 de Abril e o meu pai sabe onde estava quando soube que ia ter um filho. Pessoalmente sei onde estava quando me decidi mudar para um país totalmente diferente do meu. Há esta importância num lugar – hospeda as nossas emoções, e com elas memórias. De qualquer forma não nos deixemos iludir, até o mais extravagante sítio poderá ser palco de uma intemporal e constante ausência de progresso. E este local em si fica sem sal, não tenho qualquer tipo de afeição por algo que me é igual – torna-se complicado evoluir na ausência de um catalisador. Tanto bom ou mau. Também não é de agora que o próprio ser humano se lembrou da importância de um lar. Onde poderia estar o criador de todo o mundo? Decerto de que estará rodeado de uma beleza incalculável. E o Diabo? Onde não haja luz.

Um ser todo-poderoso terá então consigo todas as condições necessárias para o seu papel, e quando estes dois lutam entre si é sempre uma batalha entre o bem e o mal. É entre a luz e a escuridão, o velho debate existencial. O que digo com isto é que existem condições em comum que fomentam o desenvolvimento, são um catalisador pois ocorre de facto uma mutação da nossa consciência. A escuridão total não implica a inexistência de progresso, até porque o maior dos abismos poderá desencadear um florescimento em alguém quando confrontado com adversidades. E apesar de a luz não estar associada à adversidade, poderá ser o resultado de alguém que foi confrontado com escuridão. Quando estamos presos na escuridão, surge um raio de luz que nos tira de lá. Daí a existência do dito simbolismo da lâmpada, do aparecimento de uma ideia quando a nossa consciência está num total apagão. É daí que vêm as epifanias. Um filme que me diz muito aborda isto mesmo – Parasite. O realizador pretendeu fazer o filme a preto e branco, de forma a aprofundar a existência e inexistência de luz nos diferentes estratos da sociedade.

A família mais estável economicamente tem uma casa no topo - a luz incide com toda a liberdade nas suas amplas janelas – foram um investimento de alguém já iluminado, pois não só tem os meios como sabe da sua importância. Enquanto a família com mais dificuldades encontra-se numa cave, e por estar na base acabou também por sofrer uma inundação, ao contrário da outra casa. A escuridão provoca estas adversidades, e são dificuldades complicadas de superar pois a luminosidade não surge com tanta frequência em alguém que tem estas condições.

Quando a luz aqui surge, é magnificente pois uma pequena luz faz muita luz na escuridão. Apenas se trata de saber como tirar partido dela e das suas repercussões no nosso consciente. “Em todo o caos há um cosmos, e em toda a desordem uma ordem.”. E há uma casa - um lugar - em todos nós. “O nosso reino está em tudo o que a luz toca” como se diz no Rei Leão. O confim, todo aquele abismo habitado por hienas é na sua íntegra uma mística por explorar e conquistar, o potencial está lá. Tratemos então de iluminar a nossa casa e de criar luz onde não há. Lembro-me de onde estava na minha consciência quando decidi organizar a minha vida para que tivesse a hipótese de estudar no Reino Unido, esse lugar sombrio de repente viu-se repleto de muita claridade.