A inquietação permanente das tangerinas mecânicas



de Afonso Madeira Alves



Aqui nos encontramos novamente.



Apanhada pelo súbito rebentamento de uma guerra que já decorria e cuja qualidade da análise empírica é expressa na quantidade de horas que se passa colado a um ecrã, a Humanidade — ainda meio a tossir — alcançou o final boss da sua relação com a informação live: tratar a guerra como um conjunto de ocorrências de última hora em catadupa sem perder o critério, a sensibilidade e o juízo.



Em consequência do contexto político que a todos envolve, suplementado pela carga emocional que armas e bombas representam, sentir-se-á leviano quem simplesmente escolhe desligar-se. Então, comprometidos, sofremos de perto pelos que fogem e pelos que se ficam porque o “lá longe” deixou de existir — e, ainda mais importante do que isso, percebemos que os nossos interesses poderão ter qualquer coisa a ver com aquilo.


Tal como um maço por fumar avisa que mata, um jornal transmite amiúde o slogan cansado de que “a primeira vítima da guerra é a verdade”, seguindo-se uma cobertura ininterrupta cuja verificação ficará à responsabilidade do consumidor. Na multiplicação dos pãezinhos quentes que são os grandes eventos bélicos, dão-se as parangonas em esteroides, os convidados do aproveitamento político, os outros do enquadramento histórico, os comentários definitivos, as histórias de soldados mortos que afinal vivem e a inabilidade em classificar artilharia. No meio de tudo isto, e mesmo que se esteja a falhar redondamente, é possível entender que o que vai acontecendo apenas importa se for parte de algo que está para acontecer.



Num dos melhores exemplos dos últimos dias sobre a busca incessante por reacções que motivem outras reacções, um jornal da tarde da SIC Notícias abriu com ligação imediata à Casa Branca, anunciando-se que Joe Biden se preparava para reagir às últimas ofensivas russas na Ucrânia. No entanto, mal o presidente norte-americano iniciou a conferência de imprensa de apresentação da juíza Ketanji Brown Jackson como sua nomeada para a vaga no Supremo Tribunal, a emissão foi rapidamente cortada. Assumindo a desconsideração, a dupla de pivots resumiu em duas frases e uma expressão a dinâmica pela qual nos regemos: “Fomos precipitados, mas não há problema nenhum. Neste caso, é uma questão interna muito importante, mas não relacionada com a notícia que nos traz a inquietação permanente”.



Ora, por norma, uma atitude cautelosa não está ao alcance de quem se encontra permanentemente inquieto. Esteja revestido de inocência ou de avidez, alguém que nunca está sossegado dificilmente terá a pachorra para ouvir uma história até ao fim. Será isto assim tão condenável? Será condenável sequer? Importa notar que a guerra assume, e bem, um peso total que relativiza tudo o resto (ao que parece, nem a verdade escapa). A extrema necessidade de não sermos inúteis alimentará o ciclo: ir acompanhando todos os desenvolvimentos de guerra é a tarefa mínima de quem se apresenta interessado e impotente. Contudo, se permanente, a inquietação corre o risco de deixar de o ser, transmutando-se em euforia sem qualquer rede de segurança cismática. Será a fase em que, face à desgraça, nos tornamos autómatos.



Assim, é tão injusto quanto performativo que se imponha agora um regime de máxima exigência no combate à desinformação. O instrumento, mecanicamente rentável, casa na perfeição com o cenário de guerra territorial e responde à ânsia dos que esperam uma dose de morfina para a sua inquietação permanente. A todos, uma melhor preparação não poderia começar a ser pedida quando já estamos em pleno combate. Pensemos no potencial desperdiçado de fotografias fantásticas de outras guerras que merecem ser recuperadas para fora do seu contexto.


Numa cena de Tangerinas, um filme que conta a história de um velho carpinteiro estónio que vive do negócio do citrino em sociedade com o seu vizinho agricultor, o primeiro afirma que “é uma parvoíce ter um negócio de tangerinas em tempo de guerra”. A conclusão chega após os dois amigos, que se recusavam a abandonar as suas casas durante a guerra entre a Geórgia e a Abecásia separatista, não terem tido a ajuda dos soldados na apanha das suas colheitas. “Seria esquisito ter soldados a apanhar tangerinas durante a guerra”, deduz o velho carpinteiro. Os soldados estariam ocupados a lutar; não seria fácil encontrar quem estivesse focado em não deixar apodrecer tangerinas.



Spoiler alert: todas as tangerineiras acabam por arder durante um ataque aéreo.



A universalidade dos apelos à paz resulta do quão podre e disruptiva uma guerra se revela. Porém, regressando aos fundamentos de Galtung, a paz não se realiza somente na extinção de guerra; é exigida, conjuntamente, a eliminação da violência estrutural que a originou. Apelar à paz é então, na sua génese, combater-se pelo fim da opressão de um povo impossibilitado de se decidir livremente e de se autodeterminar politicamente. Pelo chavão, a paz é a ausência do medo. Desta forma, falar do povo ucraniano como um direito inalienável de uma esfera de influência que o invade provém de um conformismo histórico que choca contra a crescente realidade de um país europeu com uma diáspora que se estende cada vez mais para lá da antiga malha soviética.



Mesmo que por boa fé, todas as tentativas de incluir nuance sairão frustradas se a moderação for apenas um disfarce que esconde a fidelidade total à doutrina de sempre; uma anti-posição resultante de um ódio histórico, não menos cego do que todos os ódios, que sobreviverá enquanto a posição dominante for pautada pela fachada, pela traição aos princípios e pelo fechar de olhos. Ao abri-los agora, o Ocidente que se desrussifica depara-se com as cedências feitas pela política em nome da economia, com algumas megalomanias pelo meio (um gasoduto, um mundial de futebol, uma Crimeia).



Ao mesmo tempo, poderá ser um efeito da inquietação permanente que oportunismos surjam por parte de muitos daqueles que se dizem orientar pelo lema liberal “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito a poderes dizê-lo”. Por cá, se não for essa a causa, voltaremos à aborrecida conclusão de que ainda se é demasiado jovem aos 48 anos. Felizmente para nós, em contexto de guerra, tudo isto serão apenas tangerinas.


Se a primeira vítima da guerra é a verdade (e concordando que a segunda poderá ser a memória), o pódio ficará completo com a morte da empatia. Parece que por aqui nos encontramos novamente.