A idade é uma arma

Atualizado: Mai 4


Por agora, sejamos claros na mensagem. Há um longo caminho a percorrer no que toca a fazer chegá-la a gerações que se querem exigentes, mas justas, com os seus representantes. Essa mensagem exprime-se no começarmos a ser mais do que apenas nós próprios, mais do que apenas a versão que nos moldou.

Fotografia de Nuno Silva Marques

Crónica de Afonso Madeira Alves

Secção de Política


Gosto muito da semana que começa a 25 de Abril e acaba a 1 de Maio. São dias de festa, de protesto, de um barulho que contrasta com o anterior silêncio imposto a um povo vassalo. Tomam-se as ruas, que são de todos, para celebrar um sentimento, em si um todo: que bom é viver em Liberdade.


Em tempos de sistemas representativos mecanizados que suprimem o espaço da moral, alavancados por um jogo político baseado no ódio ao reverso da medalha, esta semana consagrada carrega um condão dicotómico: se por um lado nos relembra que os valores fundamentais da Democracia ultrapassam quaisquer interesses partidários, por outro mostra-nos que as feridas abertas por uma Revolução que lidou com a queda de uma longa ditadura não sararam à velocidade estimada. Reconheçamos a diferença expressa no simples advérbio empregue: para uns, passaram quase cinquenta anos; para outros, passaram quarenta e sete.


Ora, é sobre o Tempo, e as mudanças permitidas pela sua maldita passagem, que me debruço numa útil constatação dada pelos últimos dias que agora findam: hoje, mais de seis milhões de portugueses nasceram depois de 25 de Abril de 1974. Significa isto que a maioria de nós dará precisamente a mesma resposta à famosa pergunta “Ouve lá, onde é que tu estavas no 25 de Abril de ‘74?” (escolho a minha versão preferida, a de Artista Bastos). Não estava. Nem lá, nem cá.


A prevalência libertina de quem festeja algo que não viveu é criticada pelos antigos que reclamam a autoria do feito. Assim, e por respeito gerontocrático, olhamos para o dia de acordo com a versão que nos for apresentada em seio familiar. Aproveitamos quem ainda cá está para contá-la, antes que se transforme em mito ou em figura de museu. No entanto, tomamos como nossas as dores contidas naqueles que delas ainda não se libertaram. Renovamos discursos impregnados pelos mesmos vocábulos de outrora. No poema de Natália Correia, cantado por José Mário Branco, deixamo-nos pentear com as cabeleiras dos avós “para jamais nos parecermos connosco quando estamos sós”. Julgo que nada estará mais errado.

Podemos começar a exigir algo que até há bem pouco tempo se considerava impossível: um distanciamento nutrido de conhecimento histórico, em todas as suas versões. Por outras palavras, as de Twain, sejamos coerentes para com a lei natural das coisas, que é a da mudança. Vi Zeca, no dia 30 de Abril de 1974, preocupado com a capacidade de politizar as massas populares que ainda há dias só falavam de bola. Mas vejo-nos hoje com uma pressão ainda maior: deram-nos a Liberdade e a Democracia, e nós temos de saber como nos unir à sua volta.


A cronologia da História ajudar-nos-á a lidar com esta responsabilidade. Como processo de validação do que até agora foi alcançado, remeto para a ligação umbilical entre o 25 de Abril e o Dia do Trabalhador. Nos anos 30, mais concretamente em 1931 e 1932, a agitação social no 1º de Maio, de carácter estudantil e popular em todo o território nacional, levou a polícia a carregar sobre os manifestantes, lançando o pânico e causando mortes. No ano seguinte, o Estado Novo cessou as liberdades democráticas de associação e reunião, acabando com os sindicatos livres, e substituindo-os por sindicatos corporativos afectos ao regime. Em 1974, no rescaldo da Revolução, assistiu-se a um primeiro dia de Maio de celebrações eufóricas, unidas pela Liberdade de o poder fazer, aliando a luta dos trabalhadores a um quadro de um Estado de Direito democrático, de onde jamais deveria ter saído.


Por agora, sejamos claros na mensagem. Há um longo caminho a percorrer no que toca a fazer chegá-la a gerações que se querem exigentes, mas justas, com os seus representantes. Essa mensagem exprime-se no começarmos a ser mais do que apenas nós próprios, mais do que apenas a versão que nos moldou. Não nos esqueçamos que, chegados aqui, ditam-nos uma sina de que viveremos pior do que os nossos pais, normalizando o fiasco que se traduz num emprego jovem precário e num desemprego jovem que galopa ao som da pandemia. O 25 de Abril carece da nossa participação. O 1º de Maio idem. Associemo-nos à pluralidade que a Democracia nos oferece. Partilhemos histórias e valores. Cartas na mesa, sem bluff. Este Povo não voltará a ser vassalo.