A filiação são tantas coisas

A recriação de uma outra ideia de família, com um discurso contemporâneo sobre o que pode ser a família, como vem sendo representada e como pode ser representada, a partir do clássico russo escrito, em 1862, por Ivan Turgueniev, e sob influência de Full Surrogacy Now: Feminism Against Family, de Sophie Lewis, deu origem à peça de teatro “Pais & Filhos”.

de Raquel Batista



Fotografia de Estelle Valente



Ainda antes do último toque de aviso para o início do espetáculo, Pedro Penim ocupa a alcatifa estendida sobre o palco do Teatro Nacional São João. O braço cambaleia em direção aos seus lábios, emblemando um diálogo com o cigarro invisível - o fake smoking -, aconselhando uma pausa, enquanto imagens documentais circulam numa tela especulando sobre o que se seguiria.



Toda a peça deriva do questionamento do simbólico, alimentada pelas controvérsias sociais, éticas, políticas e económicas da sociedade, que não sabe como se despedir, como receber, nem os seus porquês.


A peça escrita e encenada por Pedro Penim reflete o seu projeto de parentalidade: o processo de gestação que realizou no Canadá, onde recorre a óvulos de uma mulher e a uma “mãe de substituição”. O facto de se tratar de um texto escrito com exemplos na primeira pessoa transporta em si um grau emocional que dificilmente pode ser ignorado, devido às sensações que geram.



Pedro Penim resolveu muito bem as prováveis admirações, autocriticou-se e colocou o espetador sempre a questionar-se, ao mesmo tempo que o lugar final era sempre o individual: a reflexão sobre o passado, a família como instituição, como órgão soberano que se intromete no consciente e, claro, no inconsciente.



O niilismo surge como abolição de tudo o que se ponderou ser, da justificativa do diário de Laura Palmer e do porquê das relações familiares. A ideia de família vem do imaginário de segurança, mas que também pode significar inferno. "Com o mundo no estado em que está? É sempre o discurso dos intolerantes!”.


O silêncio venceu os gritos entre as gerações no momento em que o ator João Abreu, que interpretou Evguéni, parte um prato decorativo de 160 anos, na sala da família de Arkádi. O gesto de fúria tornou-se um ataque pessoal a Arkádi e à sua família, os Kirsánov.



À medida que o tempo avançava, Arkádi percebia que a família, os laços de sangue, podem ser questionados, mas que as emoções são verdadeiras serpentes poderosas. A forte presença de João Abreu contribuiu em larga medida para que os espetadores se insinuassem, entre risos e palavras pouco simpáticas, para com a personagem - o ator mostrou ser um elemento essencial na narrativa.



O mantra de que nada nos pertence é perturbador: a peça reúne uma diversa pluralidade de desassossegos que cumprem rigorosamente a função que o teatro tem, de inquietar (como acontece, por exemplo, com a desunião de pai e filho ou o porquê de esta existir).



A versão de Pedro sobre "Pais & Filhos" é uma pura revolução, uma revolução do pensar, é uma sequência de murros nos palcos através da posição do teatro enquanto objeto de esclarecimento, de dúvida e de necessidade de respostas - trata-se de um tocar no ombro das instituições.


A peça torna-se assim em si mesma niilista, no que toca à falta de respostas das instituições, e serve-se da arte para se fazer sentir.



O estado atual da gestação por substituição na Europa não permite que todos tenham acesso ao processo de gestação, por a economia não significar igualdade e as instituições não se adaptarem à contemporaneidade.