A Extinção do Homo Economicus

Existe um ser previsível e representativo, cada vez menos figurante e capaz de ser antevisto, tendo em conta que a profecia da racionalidade tem sido substituída pela blasfémia da normalidade do quotidiano. Com tanta mudança nas correntes de pensamento, existe uma espécie que pode estar em vias de extinção, o Homo Economicus.

de Gonçalo Brites Ferreira



O Homo Economicus é um ser que habita nos modelos da economia Neoclássica, dotado da argucia de escolher consistentemente a opção que melhor satisfaz as suas necessidades, recorrendo a toda a informação disponível. É um ser que não se contenta com menos que o máximo da sua utilidade e, ao contrário dos comuns mortais, não se rege por sentimentos e emoções. É um ser próprio, peculiar, que não se sente parte de nenhum grupo nem age em conformidade com qualquer tipo de organização ou cultura. Pela sua forma tão inerente de agir, o Homo Economicus torna-se previsível, visto que está preso a uma sucessão de movimentos lógicos, e a natureza demonstra-nos que a previsibilidade implica potenciais fragilidades face a possíveis predadores.


Os predadores do Homo Economicus somos todos nós, e a nossa forma de agir. Não agimos conforme a nossa máxima utilidade (seja lá o que isso for), nem somos totalmente racionais ou desprovidos de emoções. Pertencemos a grupos sociais, temos a possibilidade de agir em sintonia com os mesmos, não possuímos (nem iremos) possuir toda a informação disponível e demonstramos ações de altruísmo para com o próximo em variadíssimas ocasiões.

No entanto, se até somos altruístas em certas instâncias, de que forma podemos aniquilar este espécime? A verdade é que hoje existe uma preocupação maior em criar modelos económicos que sejam constituídos por “pessoas normais”, com profundidade emocional e intelectual, que demonstrem o conflito entre os dois sistemas que governam o nosso campo da ação.


O primeiro sistema resume-se à intuição, à decisão mais fácil e espontânea, que não exige esforço. No fundo, a primeira ideia que nos surge, a mesma que nos diz que a nossa mãe nunca se engana e onde nós, de forma aberta e natural, associamos as experiências do passado à realidade diante de nós.


Os especialistas na linguagem corporal dizem que a não conseguimos esconder, e que para a disfarçar, temos de nos aplicar, através de estudo e treino na implementação de técnicas ainda por comprovar. Porém, se aqui entramos no domínio do esforço, o processo não é intuitivo, e se não é intuitivo não é do primeiro sistema que estamos a falar.


O segundo sistema resume-se ao discernimento, centra-se capacidade de raciocínio e exige tempo e esforço, não apenas para entrar em ação como também para estar disponível no momento da ação. É um processo diluído ao longo das nossas vidas, onde, num tempo muito próprio, a informação ocupa um lugar que nunca irá estar totalmente preenchido.


Este confronto entre os sistemas da intuição e da razão é o que nos permite sobreviver enquanto espécie. É ingénua a ideia de que a sagacidade é suficiente para a prosperidade: para sermos totalmente funcionais precisamos de confiar nos nossos palpites.

Assim, o poder da intuição traz-nos a simplicidade no dia a dia. Se nos regêssemos apenas pela racionalidade, provavelmente não seriamos capazes de tomar decisões elementares. Ser racional não significa que sejamos realistas, mesmo que sejamos levados a uma escolha por um demorado processo seletivo que envolva pesquisa e análise. Em todo o caso, a racionalidade não nos impede de sermos constantemente ludibriados por um complexo conjunto de artimanhas cerebrais que nos levam a agir contra os nossos interesses.


O Homo Economicus é uma figura que pretende explicar uma realidade complexa através de uma simplificação, desconsiderando importantes dimensões comportamentais e psíquicas que toldam a nossa forma de agir.

Esta figura age em conformidade com os pressupostos que o criador dos modelos em que habita define. Mediante maior ou menor habilidade de quem propõe esses mesmos paradigmas, ela pode explicar uma realidade que, em última análise, é a realidade que o proponente do modelo acredita. Assim, torna-se um instrumento que pode suportar correntes de pensamento, ideologias ou doutrinas. A minha intuição não augura nada de bom daqui.