A economia do buzinão

Atualizado: 22 de jun.

"Disseram-me agora": "vai haver um buzinão". "Devia haver um buzinão mas era para nos dar carinho." Foi Jorge Jesus quem o disse, no entanto, podia ser qualquer presidente de um Banco Central por estes dias, visto que não precisavam de tanto carinho económico há várias décadas. Porque será o buzinão o meio de protesto preferido tanto de adeptos de futebol como de cidadãos descontentes com a inflação?

de Nuno Can



A inflação é a subida contínua e generalizada dos preços. Durante décadas, diferentes países sofreram de crises inflacionárias e uma das grandes questões que se colocava entre os economistas era como controlar a inflação. Por alguma razão, ainda em discussão, estas crises desapareceram e surgiu um outro fenómeno: a falta de inflação e de deflação.

Para se perceber um buzinão como deve ser, há que conhecer Phillips, que fez muitas coisas interessantes, mas que ficou conhecido por aquilo a que chamou um "quick and dirty work" em 1958. Nesse trabalho, deu ênfase a uma histórica relação entre a inflação e o desemprego e, como qualquer economista sempre quis, nunca mais ninguém se esqueceu da sua curva: a curva de Phillips.

A curva de Phillips é fundamental para os buzinões e para a macroeconomia, mas sobretudo para os primeiros. A curva serve de referência para os Bancos Centrais, mostrando uma relação positiva entre o emprego e a inflação. Quanto mais quente está a economia, mais emprego há e mais poder os trabalhadores têm para negociar salários mais altos. Aparentemente, isto seria ótimo. O problema é que cada empresa terá de subir os preços dos seus produtos e, assim, os preços nesse país sobem. Os trabalhadores, tendo mais dinheiro no bolso, compram o mesmo que compravam antes ou até menos. E isso é inflação.

Como a inflação gera buzinão, os Bancos Centrais previnem-se e quando percebem os primeiros sinais de inflação, sobem as taxas de juro para arrefecer a economia e acalmar os condutores.

Durante as últimas décadas esta relação parece ter desaparecido ou sido atenuada. Esperava-se que a crise de 2008 fosse acompanhada de deflação e que a recuperação depois da crise fosse acompanhada de inflação, no entanto, nenhuma das expectativas se tornou realidade. Anos e anos de preços no consumidor estáveis e até de níveis de emprego elevados e os cidadãos europeus, referindo-me aqui mais concretamente aos meus compatriotas, não se dignaram a reconhecer o importante papel dos economistas e tecnocratas. Nem um buzinão carinhoso, nem uma salva de palmas à janela, nada.


É certo que ninguém percebeu bem porque é que a curva de Phillips não funcionava mais, mas conseguiram que o debate e os rumores associados não saíssem dos corredores da academia e dos bancos centrais e não assustaram nem o emprego nem o nível de preços.

Em 2015, os intriguistas Coibion e Gorodnichenko fizeram um estudo para perceber porque é que o emprego e a inflação, sempre tão bem relacionados durante tantos anos, se haviam mais recentemente desavindo. Há vários fenómenos, como a integração dos mercados, que explicam o motivo pelo qual o aumento dos preços por parte das empresas não equivale necessariamente a um aumento da inflação doméstica: se os produtos em causa forem vendidos para exportação, a inflação doméstica não se altera. E vice-versa.

A inflação depende bastante das expectativas das pessoas e empresas sobre a própria inflação. Se todos esperarem uma grande inflação, essa inflação concretiza-se. O que aconteceu em 2008 e é provável que aconteça nos próximos meses é que os economistas subestimaram consecutivamente a inflação, porque os cidadãos mais atentos aos preços do combustível do que aos restantes preços, esperavam inflação. E quando se espera inflação, a inflação acontece. É uma espécie de lei da atração económica.

No estudo, provaram que as empresas fazem aquilo que se deve fazer sempre: ignoram os economistas e as suas estimativas. As empresas e as famílias recorrem a métodos simples para tentar perceber o que acontecerá à inflação: a preferida costuma ser os preços dos combustíveis. No estudo prova-se que quem visita frequentemente bombas de combustível é mais sensível ao preço dos combustíveis quando pensa sobre a inflação.

Este estudo demonstra que a curva de Phillips está viva, se olharmos para as estimativas de inflação da população, em vez de olharmos para o que previam os especialistas. As subidas de preços dos combustíveis são, por isso, a pior notícia.

A somar aos efeitos teóricos que geram a subida dos preços, este efeito comportamental faz aumentar ainda mais a inflação.

É pela importância do preço dos combustíveis que não há manifestações à porta de supermercados ou de instituições públicas, mas há buzinões. Não quero ser acusado de não apresentar soluções, por isso, deixo-vos 3 propostas:


1. Mostrar preços de outros bens nas autoestradas. Em vez de se mostrar apenas o preço do combustível em diferentes gasolineiras, pode-se também acrescentar o preço de pão em diferentes padarias ou da carne em diferentes talhos. Isto ajudará a convencer os condutores que a inflação não se está a alastrar a outros bens.


2. Notícias e comentários televisivos devem privilegiar o preço do barril de cerveja em detrimento do barril de petróleo.


3. Buzinar baixinho. A minha dica para quem quiser mesmo fazer buzinões anti-inflacionistas é a seguinte: se todos fizermos de conta que a inflação não existe, ela adormece. Se nos pusermos com grandes barulheiras, a inflação acorda. Percebo a vontade de buzinar, mas se for baixinho resulta melhor.