A direita jacobina

Atualizado: 15 de Mar de 2020

A batalha pela liderança do PSD é mais um (pequeno) episódio de uma longa batalha mundial pela alma da direita. Uma batalha entre pessoas de sangue frio e pessoas de sangue quente. Entre uma direita que quer fazer contraste com a esquerda ao nível ideológico e comunicacional e outra que não se importa sacrificar o estilo em nome da ideologia. A direita dos princípios e das ideias contra a direita dos dogmas e do eleitoralismo. Rio representando quem acha que os fins não justificam os meios, Montenegro representando quem acha isso uma parvoíce. Isso levou-me a uma reflexão mais profunda sobre este confronto, que espero que tenham paciência para acompanhar nas próximas linhas.

A direita e a esquerda surgiram como as vemos hoje quando Luís XVI mandou reunir Cortes em 1789, num episódio de organização de assentos cujo valor lírico é fantástico para abrir crónicas. À direita sentaram-se os conservadores, defensores do Rei. À esquerda os radicais, defensores do fim do Antigo Regime. Desde esse momento, a esquerda foi associada a revoluções profundas, soluções ambiciosas e uma fé na sua capacidade de transformação social. Quem a constituí venera o progresso e pretende libertar todas as suas potencialidades, é partidária da rutura e das promessas grandiosas. Por isso muitas vezes desilude e acaba por lidar com as consequências que não conseguiu prever. Para essas situações existe a direita, tão necessária como a esquerda para o bom funcionamento democrático. E com esta direita essencial não falo daquela sala de 1789, em que a direita queria a todo o custo deixar França exatamente como estava. A direita essencial à democracia é aquela que continuava na sala em 1791, quando a hipótese do absolutismo já estava posta de parte e nesse lado da sala se sentaram os girondinos, que tentaram conter os excessos dos jacobinos à sua esquerda, perdidos no seu fanático zelo revolucionário.

O trabalho idealizado da direita não é tentar reverter o progresso abraçado pela esquerda, mas sim gerir essa ânsia pela transformação de forma a evitar resultados destrutivos e manter o equilíbrio social entre as expectativas de conservadores e progressistas. A direita não deve atirar-se para a linha para tentar parar comboios em movimento. Deve procurar impor limites de velocidade na ferrovia. É uma lógica de “good cop, bad cop”, que, quando funciona, produz resultados extraordinários. Isto não quer dizer que não existe esquerda pragmática (também ela vital para o bom funcionamento das instituições), só quer dizer que a direita conseguia conter melhor os seus ímpetos populistas que a esquerda. Os seus partidos eram mais organizados e menos suscetíveis a serem tomados de assalto pelos seus radicais, por terem uma natureza menos ativista e mobilizadora.

Pelo menos foi assim que eu sempre vi a direita a que julgo pertencer. Não como loucos que procuram reverter o caminho imparável do tempo, mas como pessoas sérias e pragmáticas, que tentam gerir o melhor possível as alterações sociais com que se deparam. Esta direita dos gritos, dos insultos, das mentiras, que promete o impossível e faz gala de ser trauliteira faz-me muita confusão. Os partidos que a História me ensinou a respeitar como os Republicanos americanos, os Conservadores ingleses ou os Gaulistas franceses foram tomados por esta mentalidade. Talvez tenham ficado baralhados pelo pragmatismo e astúcia da esquerda, que se soube moderar nas últimas décadas. O respeito de partidos anteriormente socialistas pelo mercado e pela iniciativa privada deixou a direita de cabeça perdida. E nem com muitos retrocessos nessa moderação (como no caso britânico), conseguiram ter a frieza necessária para se acalmar. Chamam traidores aos adversários, desrespeitam instituições democráticas, questionam consensos científicos e vilificam elites intelectuais e a imprensa livre. O que faz confusão é que se estivesse a falar da extrema esquerda destes países estas acusações seriam iguais. Estas sempre foram as táticas que descredibilizavam a esquerda, o seu desrespeito (ou respeito seletivo) por factos, a sua lealdade tribal, a sua falta de fé no parlamentarismo e na democracia liberal, o seu recurso a insultos e as suas campanhas de desinformação. Não estou a dizer que estas falhas nunca existiram na direita. Aliás, a facilidade com que muitos abraçaram este estilo troglodita nos últimos anos mostra que andavam era bem escondidas. Mas o que é facto é que apesar dos seus vícios elitistas, a direita liberal e moderada que dominou as cúpulas dos seus principais partidos da Segunda Guerra impedia este lado jacobino de vir ao de cima. Agora, parece em vias de extinção.

O marco da Segunda Guerra é particularmente interessante. É um facto que a direita era muito mais agressiva e dogmática antes da Guerra, mas parece que se passou ali alguma coisa no entretanto que convenceu a malta a mudar de abordagem. Talvez os que abraçam hoje esse estilo devessem revisitar que raio de acontecimentos foram esses.

A direita não devia achar que a História caminha para um momento mágico em que vamos estar todos de acordo, isso é para comunistas. A direita é realista, portanto sabe que vai sempre haver gente (muita mesmo) que não concorda com os seus princípios sociais, políticos e económicos. Não faz sentido antagonizar essas pessoas, declarando-as inimigas da causa e rejeitando tudo o que saí da sua boca, isso é para fanáticos. A direita deve tentar pela seriedade e pelo poder argumentativo conquistar o poder, de forma a guiar o rumo dos acontecimentos da forma mais suave e razoável possível. Não deve usar o medo, a mentira e a manipulação das instituições para chegar ao poder e ignorar todos os que não a ajudaram a chegar lá. Essas táticas até podem no curto prazo ter melhores resultados eleitorais, mas são também, como nos mostra a História, as que mais facilmente levam a esquerda às suas típicas soluções drásticas (leia-se revoluções).

Será ser um bom conservador obrigar toda a gente a agir como nós, criando um clima social tóxico? Será ser um bom conservador negar asilo a quem mais precisa, perpetuando miséria e frustração no Mundo em desenvovlimento? Será ser um bom conservador vilificar os mais indefesos nas nossas sociedades, dividindo pela classe? Será ser um bom conservador reverter para lógicas nacionalistas, diminuindo a colaboração internacional e aumentando o risco de conflitos? Será ser um bom conservador atacar o mercado livre e impor tarifas aduaneiras, empobrecendo os consumidores e beneficiando monopólios?

A minha resposta é não. Um bom conservador não é quem tem posições conservadoras porque estão escritas nalgum livro de filosofia política ou porque ficam bem nos seus círculos sociais. Um verdadeiro conservador é pragmático. Sabe pôr esses dogmas e preferências pessoais de parte. Olha para os problemas e para as suas possíveis consequências, e toma a posição que vai criar menos instabilidade social e produzir maior riqueza para a sua comunidade. Pelo menos esse é o meu estilo de direita.

Fala-se muito nos Estados Unidos da diferença entre ser conservador com “c” pequeno (significando ter uma atitude cautelosa e ponderada) e “C” grande (ter uma fé fanática no movimento conservador e nas suas ideias, independentemente das circunstâncias). A escolha no PSD será entre estas duas abordagens. Não tenho dúvidas com que lado da sala de 1791 são mais parecidos cada um dos candidatos e sobretudo não me ficam dúvidas de qual dos estilos seria melhor para o país.