A Democracia cravada em nós





Crónica Aspas Aspas de Afonso Alves

Mestrando de Relações Internacionais na UCP



A actual pandemia de COVID-19 trouxe-me à memória o famoso discurso da tomada de posse de Franklin Roosevelt em 1933, no pico de uma crise sem precedentes, mais tarde intitulada como Grande Depressão. Naquela manhã fria e cinzenta de Março, o solarengo Roosevelt weather, que tinha abençoado todas as suas acções de campanha até então, teimava em não aparecer. A verdade é que a luz dessa manhã estava inteiramente contida nas palavras proclamadas pelo recém-empossado Presidente norte-americano, dirigidas a uma nação à beira do colapso: "A única coisa que temos a temer é o próprio medo". Hoje, tal como naquele dia em 1933, estamos cheios de medo.


O medo tolda-nos a razão. Somos craques na elaboração de fugazes flagelos e trágicos devaneios. Torna-se algo recreativo para a nossa consciência, como se de um desporto que faz mal à saúde se tratasse. Intensificado por um denominado inimigo invisível de características ainda pouco conhecidas e de letalidade incomum, abdicamos de valores outrora conquistados com uma facilidade surpreendente. Querendo evitar antes de mais a provável polémica, não me refiro à decretação do Estado de Emergência e às suas sucessivas renovações. Rapidamente nos fechámos em casa, restringindo temporariamente a nossa liberdade pessoal, de forma a proteger o maior número possível de cidadãos (o que é positivo).


No entanto, mais rapidamente ainda, tratamos valores democráticos como bens supérfluos que podemos recomprar a preço de saldo numa próxima promoção. Refiro-me à actual petição que pede o cancelamento da sessão solene de comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República que conta, à hora a que escrevo do dia 17 de Abril, com mais de 20 mil assinaturas. Na sua descrição, exclama-se com incredulidade a aglomeração de centenas de pessoas no interior da Assembleia. Entretanto, a AR estima que estejam presentes cerca de 130 pessoas, bastante menos do que as 700 que assistiram à sessão no ano passado. Falamos de uma Assembleia que se encontra em funcionamento, sob plano de contingência, desde o início da crise sanitária.


É desonesto enfiar todos os milhares de assinantes no mesmo saco: fora os desprovidos de qualquer sentido crítico (por medo ou desconhecimento), haverá os que estão legitimamente apreensivos com a capacidade das autoridades competentes em assegurar o nível necessário de distanciamento entre participantes; os que confundem a importância do evento com celebrações religiosas, eventos desportivos ou uma simples festa; temos ainda os que equiparam a cerimónia à irresponsabilidade de ir para a rua no 1º de Maio; e, finalmente, a facção que aproveita para perpetuar o partidarismo do 25 de Abril.


Talvez sejam sinais dos tempos, mas vejo-nos complacentes com os valores democráticos. A Democracia é debate partidário e discussão acesa nos cafés, mas é também encontrar pontos de encontro que funcionem como base para todos os agentes que dela fazem parte. Eu vejo o 25 de Abril (o dia, não o período subsequente até ao 25 de Novembro de 1975) como essa ponte ideológica. Não sou utópico ao ponto de esperar que não haja diversas interpretações de factos históricos, pois não há História sem interpretação. Espero sim, o fim do 25 de Abril como arma de arremesso. Se a Esquerda se quer apropriar exclusivamente do dia que nos deu a Liberdade, a Direita abriga alguns que menosprezam a importância da Revolução. Abril é melhor do que Novembro, ou vice-versa? Em suma, andamos há anos a recusarmo-nos a partilhar ideias num feriado produzido para esse efeito. A discussão saudável é substituída por quem pode e quem não pode ostentar um cravo vermelho na lapela. Passamos o feriado a tentar perceber quais os deputados que usam a flor e quais os que não a usam. Desta dicotomia, unem-se pela extrema necessidade de explicar a sua opção, invariavelmente atacando o outro lado. Como nota positiva, relembro o exemplo de Pedro Passos Coelho na sessão comemorativa de 2010, que de cravo vermelho na lapela fez notar:


“Se ao fim de 36 anos ainda há polémicas em Portugal sobre quem põe um cravo vermelho ou não, eu julgo que teríamos evoluído pouco. E eu acho que evoluímos o suficiente.”

Não conheço ninguém que não goste de ser livre. Celebrar, e relembrar essa liberdade, mesmo que devidamente contingentada, é vital para um país testemunhar que os seus princípios continuam, e continuarão, intactos.


Não nos esqueçamos do quão jovem ainda é a nossa Democracia, e da ingenuidade que daí advém. Posicionemo-la numa antítese: é a matriarca unicamente focada no bem-estar dos seus; mas é também uma filha recém-nascida que carece de todos os cuidados e protecção. Necessita não só de cidadãos atentos e devidamente informados, mas de representantes que a defendam dignamente. Gabo-lhe a candura ao incluir em si não só aqueles que a estimam, mas especialmente aqueles que a desprezam. Põe na praça o “pró” e o “contra”; o bem e o maldizer. A Democracia não foi um milagre; foi, e é, trabalho árduo.


Por fim, lanço um repto à geração que, tal como eu, é incapaz de conceber uma vida sem liberdade: O cravo vermelho não é vermelho da cor do sangue derramado ou da infame revolução comunista. É vermelho da cor da paixão e do amor verdadeiro. Pode ser usado, ou não, sem qualquer tomada de posição ideológica no espectro político português. Assim, nós, os ainda românticos da Democracia, admiremo-lo sem qualquer pudor ou clubismo partidário. Rejeitar o revisionismo histórico é perceber que o 25 de Abril de 1974 não é o 26 de Abril de 1974, e muito menos o opositor do 25 de Novembro de 1975. Tal como Roosevelt alertou naqueles tempos difíceis, não deixemos que “o terror injustificado paralise os esforços necessários para converter a intenção de fugir em vontade de avançar". Não tenhamos medo e sejamos esse avanço.