A Crise dos Mísseis cub… ucraniana

A Rússia e a Ucrânia são um só povo, pelo menos, é nisso que Putin “acredita firmemente”. Só há um problema, não é assim que os ucranianos se sentem.

de Alexandre Guedes Vaz

Leitor do Crónico



A Rússia e a Ucrânia são um só povo, pelo menos, é nisso que Putin “acredita firmemente”. Só há um problema, não é assim que os ucranianos se sentem.


A solução deste problema, para Putin, poderá passar pela invasão da Ucrânia, - e os cerca de 120 mil soldados nas fronteiras deste país, a maior movimentação militar em décadas, parece ser um indicador claro de um ataque. No entanto, a iminência de uma invasão é, no mínimo, incerta. Putin insiste que não vai invadir a Ucrânia. Já Biden afirma que há uma possibilidade concreta de uma invasão em fevereiro. Algures no meio, os cidadãos ucranianos continuam a treinar para se defenderem no caso de uma invasão.


Uma coisa é certa: para a máquina de propaganda de Putin, se uma invasão russa a uma Ucrânia soberana e democraticamente eleita, depois deste bullying geopolítico, acabar por acontecer, será, naturalmente, por culpa da NATO e dos EUA que, devido à sua expansão para a Europa de Leste, não deram outra hipótese à Rússia senão responder aos movimentos ocidentais.


Mas, então, porquê esta movimentação de tropas russas?


Para Putin, a aproximação da Ucrânia à União Europeia e à NATO, é uma ameaça à segurança russa e, talvez, também, ao seu próprio regime.


Quanto à segurança russa, a colocação de mísseis ocidentais na Ucrânia e na Europa de Leste, que, segundo a NATO, estariam lá apenas por razões defensivas, reduziria o intervalo de tempo desde o lançamento de um míssil ocidental até ao seu impacto na Rússia para 3 a 5 minutos.


Já a existência de democracias genuínas nas fronteiras com a Rússia, especialmente num povo que Putin considera ser “um” com o povo russo, pode ameaçar o seu reinado de 22 anos.


Apoios e Problemas (Russos) na Invasão:


Se é verdade que uma invasão agora seria provavelmente bem-sucedida, também é verdade que Putin já poderia ter ordenado a invasão mais cedo, quando o exército ucraniano não tinha ainda acesso às armas ocidentais e a resposta não estava ainda tão coesa.

Se Putin decidir invadir, até terá alguma sorte - contará com o apoio do seu amigalhaço na Bielorrússia, o ditador Lukashenko, que o deixa usar o seu país que, convenientemente, faz fronteira com a Ucrânia, como parque de estacionamento de tropas russ… quer dizer, para “exercícios militares”, permitindo assim mais uma frente de ataque.


Se é verdade que uma invasão agora seria provavelmente bem-sucedida, também é verdade que Putin já poderia ter ordenado a invasão mais cedo, quando o exército ucraniano não tinha ainda acesso às armas ocidentais e a resposta não estava ainda tão coesa. Aliás, segundo vários especialistas, uma invasão, neste momento, implicaria fortes baixas no exército russo, acompanhadas de elevados custos militares e fortes sanções económicas - tanto para a Rússia como para Putin e os seus aliados.


Tudo isto coloca importantes questões: “Porque não invadir mais cedo? De que é que Putin está à espera?”. Talvez o único benefício desta espera seja a certeza de que se invadir a Ucrânia não terá uma resposta militar da NATO (pelo país não fazer parte desta) embora saiba que terá consequências.


Resposta de Putin:


Putin não é um homem de deixar passar ataques contra si ou contra a Rússia. Por isso, no caso de retribuição ocidental, provavelmente cortaria o fornecimento de gás à Europa, que já está a passar uma crise energética, no meio do Inverno. O impacto desta ação é ainda mais relevante quando se tem conhecimento de que a União Europeia recebeu cerca de 47% do seu gás natural da Rússia, no primeiro semestre deste ano.


A Rússia acabaria por se voltar para novos mercados, como fez com a Venezuela após as sanções provocadas pela anexação da Crimeia. Contaria também com o apoio da China, um problema para a administração Biden, que procurava uma relação estável e previsível com a Rússia para se poder dedicar ao seu “principal inimigo”, a China.


Com o que é que a Ucrânia pode contar?


A Ucrânia tem ao seu dispor armas e treino ocidentais (e 5000 capacetes alemães!), mas não soldados ocidentais. Tem também um exército reforçado, apoiado por cidadãos que, enquanto se preparam para uma invasão, vivem como se (quase) nada estivesse a acontecer, estando já habituados à tensa situação de guerra no seu país.


A Ucrânia pode também contar com a infelicidade de descobrir que não terá o apoio militar que precisa quando ameaçado por um país vizinho, apesar de ser membro das Nações Unidas, soberano e democraticamente eleito.


Por fim, poderá ainda contar com impactos cada vez mais acentuados na sua economia, devido à instabilidade geopolítica. Instabilidade essa, que já teve fortes impactos económicos com, apenas, a mera ameaça de invasão.


E agora?

Será que tudo isto faz parte do plano de Putin de tornar a Rússia “grande outra vez”? Uma ideia digna de “O Novo Czar” - o nome da biografia de Putin. Este olha certamente para o passado com algum desconsolo, chamando à queda da União Soviética “A maior tragédia geopolítica do século XX”

Encontramo-nos então num impasse, onde todos querem uma resolução diplomática, mas onde ninguém está disposto a ceder.


A Rússia insiste que não vai invadir a Ucrânia, mas coloca à NATO, aos Estados Unidos e à União Europeia, condições que estes não aceitam. Entre as quais, a diminuição da força militar ocidental na Europa de Leste e a negação da entrada da Ucrânia e da Geórgia nestes grupos.


Como justificação para a imposição destas condições, a Rússia alega (não ironicamente) a própria soberania ucraniana. Coloca até em cima da mesa a possibilidade de invadir a Ucrânia para a libertar, referindo, em típica retórica imperialista, que “a verdadeira soberania da Ucrânia só é possível numa parceria com a Rússia.” - Esta frase até poderia ser das mais simultaneamente hipócritas e megalómanas que Putin diria em toda a sua vida. Isto, se… Putin não fosse Putin.


Será que tudo isto faz parte do plano de Putin de tornar a Rússia “grande outra vez”? Uma ideia digna de “O Novo Czar” - o nome da biografia de Putin. Este olha certamente para o passado com algum desconsolo, chamando à queda da União Soviética “A maior tragédia geopolítica do século XX”, e, talvez, até tenha razão, quer dizer alguém se lembra de mais alguma tragédia geopolítica do sec. XX?


Ainda tudo está por determinar. Será que Putin quer mesmo invadir a Ucrânia ou será bluff? Qual a verdadeira razão para esta ameaça russa? Será esta mais uma história na saga Ocidente vs Rússia, sem que haja um único confronto direto? Nada é claro. Apenas uma coisa parece certa. Neste clima, se houver guerra, será… fria.