A crise climática é uma responsabilidade política?


Para todos os leitores deste jornal, certamente a expressão “crise climática” não é nova. No entanto, ainda tem muito que se lhe diga, especialmente à nossa classe política. Estando nós já numa situação pandémica devido à má gestão de recursos naturais feitos pela Humanidade, termos 36 debates em que pouco se fala sobre a transição energética, crise climática e sustentabilidade é surpreendente. Ainda mais, quando vemos partidos a assumir que não é possível reduzir emissões e ter crescimento económico, senti urgência de escrever um texto sobre isto. E aqui vai ele.

de Francisco Paupério





Para contextualizar os que não estão tão familiarizados com as consequências, nos próximos 20 a 30 anos, se nada fizermos (mantendo o ritmo de aumento do uso de combustíveis fósseis e consumo, e, consequentemente aumento de emissões de carbono para a atmosfera), esperar-nos-á um aumento médio da temperatura global entre 5 a 7 ºC, o que significa aumentos de 15ºC nas zonas dos Polos, eventos de seca generalizada terão cerca de 4 vezes mais ocorrência, 3 vezes para eventos de precipitação elevada, como cheias e furacões e ondas de calor a rondar as 10 vezes.



No caso de Portugal, um dos países que será certamente mais afectado, associar todas estas consequências às já sentidas, deve pesar na consciência de cada pessoa. O que é pedido pela comunidade internacional de cientistas e reforçado pela classe política é que se mantenha o aumento médio global da temperatura em 1,5ºC, que já traz consigo cerca de metade das consequências de previsões mais catastrofistas (e, no entanto, não tão irrealistas). Entretanto, em 2015 houve mais pessoas refugiadas por acontecimentos climáticos do que de guerra – cerca de 17 milhões de refugiados climáticos. Quem diria que só vamos ter consequências em 2050 ou 2100!



Mas então, como mantemos o aumento nos 1,5ºC? Com redução de emissões. É um ponto ao qual ninguém poderá fugir, nem mesmo o país mais ocidental da Europa. E que estratégias estão a ser usadas pelos decisores políticos? A principal tem sido o investimento público em sectores estratégicos como o da energia. Temos de perceber que grande parte das nossas emissões provêm do uso de energia (73,2%) repartido entre indústria (24,2%), transporte (16,2%) e edifícios (17,5%), para além da queima directa dos combustíveis fósseis (7,8%). E outra grande parte vem da agricultura (4,1%), pecuária (5,8%) e desflorestação (2,2%).



A melhor maneira de reduzir emissões será, sobretudo, electrificar todos estes sectores, enquanto se aumenta a fatia das energias renováveis como fonte de energia. Pelo menos, o mais fácil de combinar descida de emissões com crescimento económico, por ser um sector iminentemente tecnológico e especializado.


Infelizmente a IL só tem parte do acesso a bases de dados utilizadas pelo +Liberdade, mas vamos a números? Ainda antes da pandemia tivemos países a reduzir emissões e a crescer economicamente. Quantos? 21. A maioria são da União Europeia e podem acreditar que Portugal está mesmo lá. Uma redução de 23 %, apesar de um crescimento irrisório de 1 %. Mas temos exemplos europeus, com reduções de emissões e crescimento económico, bastante mais significativos. Se há correlação? Não há.



Pode explicar-se este acontecimento por dois lados: primeiro, houve efectivamente uma aposta em energias com menor impacto ambiental e segundo, a mudança da indústria (que é altamente poluente) para fora da europa, com estabelecimento na zona asiática. Mas mesmo contando com a saída destas indústrias a União Europeia continua a ter um saldo ambiental positivo e crescimento económico. Outro dado interessante é o de que a Bulgária e o Uzbekistan aumentaram a sua indústria e continuaram a reduzir emissões ao longo dos últimos 20 anos.



Exemplos como estes bastavam para mostrar o quão erróneas são as posições em relação ao ambiente por parte das elites políticas portuguesas. Mas já que referimos este tema, gostava de trazer outras possíveis políticas para promover crescimento económico e transição climática. Instrumentos como a taxa de carbono, onde uma empresa pagará em imposto as suas emissões de carbono de modo a acomodar certas “externalidades” são essenciais para guiar o processo da transição. É preciso enviar uma mensagem clara para o mercado. Incentivos fiscais para empresas sustentáveis, redução dos apoios a empresas de combustíveis fósseis (ainda nem acredito que é preciso sempre reforçar este ponto no século XXI), investimento público em tecnologias e energias mais sustentáveis. O que se pede é liderança pelo exemplo e está do lado europeu continuar a dar esse exemplo. Sabemos agora que a rota actual de políticas públicas não será suficiente para manter a meta de 1,5ºC. Está do lado dos políticos ser mais ambiciosos.



Negacionistas já há poucos, mas não podem ser desprezados. Neste momento, o mais preocupante são os que assumem que a crise climática é real, mas não acreditam no poder de um país, que faz parte da União Europeia, para ter um impacto significativo. Num país com as condições quase ideais para liderar a mudança. Acreditam que os países mais desenvolvidos têm maior capacidade de responder a estas necessidades. Mas eu pergunto: serão os postos de trabalho criados pela transição verde mais ou menos especializados? O ecossistema empresarial “verde” em Portugal, parece-me bastante especializado. E sabem o que rima com especializado? Salário mais elevado.



Gostava que o debate fosse mais em torno de ideias e de perceber que medidas podem ou não funcionar para a nossa realidade. Esse é, também, o papel de um político. Mas parece que estou à frente do meu tempo. Primeiro, enquanto cientista, ainda tenho de provar que a crise climática é real e depois, enquanto político, convencer a agir.



P.S.: O próprio World Economic Forum apresentou como principais riscos para a próxima década por ondem decrescente: o falhanço da luta climática, fenómenos extremos e perda de biodiversidade no top 3. Só não vê quem não quer, ou a quem não dá jeito ver.