A Covid tem o melhor passe social

Mais uma vez: os transportes


Crónica de Maria Madalena Freire

Licenciada em Ciências da Comunicação na NOVA-FCSH


Desde que me lembro de ouvir as notícias, sempre se falou nos transportes públicos. Não como se fala da Web Summit, no turismo ou nas igrejas belíssimas que temos, mas como aquele parasita que toda a gente reconhece como um problema primordial. Porém, passado alguns anos, continua a ser um empecilho, um centro de discussão política e das queixas constantes de quem os frequenta. Há um claro melhoramento destes e de ligeiro financiamento para melhorar a regularidade dos autocarros e do metro, de investir na ecologia e até recuperar o trajeto de elétricos inutilizados durante alguns anos, mas não deixam de ser um antro de aglomeração.


Vivendo em tempos de desconfinamento, sabemos, como foi e é constantemente recordado, que o essencial será a utilização de mascara, a lavagem das mãos, tossir e espirrar para o cotovelo, mas também o devido distanciamento social de 1,5 ou 2 metros. Portugal não parece estar a ir no mau caminho, para quem previa uma segunda vaga já no desconfinamento. Passado quase dois meses da lufada de ar fresco que cada um de nós pôde ter - apenas fora dos estabelecimentos porque aí todos sabemos que ar fresco não teremos dentro da máscara - parece que os portugueses se andam a portar bem.


No entanto, o número de casos positivos registados ao longo destes dias são iguais, em Lisboa e Vale do Tejo, aos do inicio do confinamento, quando nos apercebemos que a covid-19 estaria para aumentar e para ficar. Dado isto, o primeiro ministro anunciou esta segunda feira prolongar a situação de calamidade em concelhos específicos, conjuntamente com uma lista de medidas concretas como: a proibição de ajuntamentos com mais de 10 pessoas, o fechamento dos estabelecimentos públicos às oito da noite, excluindo os restaurantes, a proibição de venda de bebidas alcóolicas nos postos de abastecimento em qualquer hora do dia e a proibição de distribuição das mesmas por serviços de entrega como Glovo e Uber eats. Qualquer aparente violação poderá ser sujeita a coima, isto é, a polícia já não aconselhará, mas punirá. Porém, parece-me que o ponto essencial, o grande motivador destes surtos sejam - eleitos, mais uma vez, como foco de atenção e de queixa - os transportes públicos. Contudo, as suas medidas são inexistentes.

Existem muitos casos relatados em Lisboa que retratam esta situação - pessoas que convivem com quem já trabalha fora da sua mesa de jantar ou escritório pessoal e que necessitam de andar de transportes públicos. Uns dizem que a polícia põe um pé dentro do autocarro para verificar, em cinco segundos e que, assim que se ausenta, toda a gente coloca a máscara no queixo, pelo grande desconforto que esta causa. Outros retratam situações que parecem ter acontecido em tempos pré-covid, quando dava dores de costas ir encostado a quatro desconhecidos, tentando escapar ao mínimo toque, sem qualquer sucesso.


Ora bem, não há máscara, não há distanciamento social. As duas medidas essenciais, segundo a DGS, para prevenir o contágio e abrandar os casos de covid-19 em Portugal. A atitude do governo é, então, proibir tomar um café às 22h, numa esplanada, com lugares definidos, mesas higienizadas, empregados com máscara e respetivamente afastadas, de acordo com as medidas estipuladas para a restauração.

Se for com dois amigos, de super bock na mão, sentar-me no 738, será que António Costa, e o seu respetivo governo, se alarmam para esta situação?