A arte, sempre, pela paz

De forma mais ou menos previsível, a guerra instalou-se entre a Ucrânia e a Rússia. Esta notícia toma agora conta dos nossos dias e torna-se difícil falar sobre outra coisa. Falemos, então, sobre a Ucrânia.

de Ana Roque Antunes





Na sequência de um incêndio decorrente da invasão russa, foram destruídas cerca de 25 obras da artista ucraniana Maria Prymachenko, que se encontravam no Museu de Ivankiv, nos arredores de Kyiv. Maria Prymachenko (1908-1997) foi uma figura notável da pintura ucraniana, cujo trabalho se tornou conhecido além-fronteiras. Este acontecimento levou-me a refletir sobre a importância do património cultural de uma nação. E, a este propósito, gostava que fizéssemos juntos uma viagem pelo que a Ucrânia já nos deu (e continua a dar) a nível artístico, na descoberta da identidade deste povo. Para isso, destaco algumas figuras:



1. Não só de Maria Prymachenko se faz a pitura ucraniana. Gostava de referir a figura de Ivan Marchuk (1936). Estudou de forma clandestina com Karl Zvirynskyi e trabalhou no Kyiv Combine of Monumental and Decorative Art, além de ter sido professor. Na década de 70, o pintor viu a sua obra ser censurada durante 17 anos por ir contra o realismo social (estilo artístico oficial da União Soviética). Apesar de ter vivido em várias partes do mundo, tem uma ligação especial à Ucrânia, que retrata nas suas obras. Como exemplo, fiquem a conhecer a obra “Tenderness”, de 1984.



2. Na mesma área artística, venho falar-vos da figura de Sonia Delaunay (1885-1979). Multidisciplinar na sua produção artística, viveu um pouco por todo o mundo, tendo morado em Vila do Conde, por volta de 1915. A sua produção congrega o abstracionismo, as formas geométricas e o uso de cores fortes. Parte da sua obra está disponível no Centro de Arte Moderna Gulbenkian, que atualmente se encontra encerrado para remodelações. Para os mais curiosos, proponho conhecerem a obra “Hommage à Stravinsky” (“Tributo a Stravinsky” — compositor russo).



3. Por falar em compositores, não posso deixar de mencionar Mykola Lysenko (1842-1912), uma figura de grande importância para a música da Ucrânia. Na verdade, Lysenko foi mesmo o mais importante compositor a desenvolver a escola nacional ucraniana, através da produção de canções folclóricas. O músico teve vários conflitos com instituições russas, tendo sido uma voz fervorosa na defesa do seu país, o que lhe trouxe muitas dificuldades profissionais: ao proibir qualquer tradução da sua música para russo, foi escolhido menos frequentemente para programas de concerto. É o autor da conhecida “Oração pela Ucrânia” (1885), um hino escrito a partir de um poema de Oleksandr Konysky. Vale a pena ouvir, mesmo sem entender totalmente o idioma. Por vezes, pouco importa.



4. Na música, mas num espectro muito diferente, temos Mariana Sadovska (1972). Numa fusão inovadora entre música tradicional e contemporânea, a cantora cria mundos únicos e riquíssimos. Há quem se refira à artista como a Björk ucraniana. Efetivamente, toda a produção musical de Mariana Sadovska se baseia no seu país de origem: canta a noite na cidade, a ruralidade do antigamente e ilustra o seu património de uma forma fresca e sempre arrojada. Proponho que ouçam esta sua versão da canção tradicional “Plyve Kacha”, com uma letra arrepiante, num diálogo entre uma mãe e o seu filho, que se encontra em combate.



5. Por último, destaco o bailarino e coreógrafo Pavlo Virsky (1905-1975). Após a sua dedicação inicial ao ballet, Virsky interessou-se pelas danças folclóricas tradicionais do seu país, tendo fundado, em 1937, o Conjunto Nacional de Dança Folclórica Ucraniana, com o intuito de fundir a tradição com a inovação e modernidade. Sugiro que visitem a coreografia “My z Ukrajiny” (“Somos da Ucrânia”).



É muito ingrato listar artistas, correndo o risco de exceder os limites plausíveis para uma crónica ou, então, de escrever um texto redutor e superficial sobre uma cultura que é tão abrangente, singular e que tanto tem para explorar. Do mal o menos, escolhi a segunda opção, na esperança de que todas estas sugestões despertem a curiosidade de conhecer mais sobre o universo cultural ucraniano.



Seria admirável conseguirmos unir-nos, todos os leitores, na procura e na partilha de mais artistas ucranianos, sejam eles figuras de outros tempos ou da atualidade, provenientes de todas as áreas e estéticas. Tenho a certeza de que as descobertas serão uma boa ajuda para vivermos este tempo de uma forma um pouco mais serena.



Mas deixo-vos uma última sugestão: ouvir a Ukraine National Symphony Orchestra, num álbum com música de Schostakovich (um dos mais importantes compositores russos), com particular destaque para a Overture on Russian and Kirghiz Themes.



Ouvi-a e dei por mim a pensar em como a música vai para lá de qualquer conflito e divergência. Não se sujeita a esta lógica de combate, mas permanece sempre cá, sem reconhecer fronteiras, para nos relembrar que ainda vale a pena lutar pela paz.




Slava Ukraini! Heroiam Slava!