A Índia e a covid-19


Este é o cenário para uma larga fatia da população indiana: Se não morrem do vírus, morrem à fome.

HIMANSHU VYAS/HINDUSTAN TIMES/GETTY IMAGES

Crónica de Sofia Pais

Estudante de Direito na FDUP



Em setembro de 2019 estava a aterrar no Aeroporto de Nova Delhi, Índia, pronta para viver um intercâmbio de 12 dias.


Apaixonei-me por aquele país (ou se ama ou se odeia!). Desde o cheiro à comida, as cores ao calor; das pessoas à espiritualidade, do lixo à música…tudo era intenso. Talvez não exista melhor palavra para definir a Índia do que intensa!


Este país com duas línguas oficiais – o Hindi e o Inglês - é o segundo mais populoso do mundo (cabendo o primeiro lugar do pódio à China), com cerca de 1, 353 mil milhões de habitantes (em 2018), distribuídos por 29 estados diferentes. Em termos de densidade populacional, e comparando com Portugal, para percebermos o caos que se vive na Índia (que se deve também a outros fatores, como a própria cultura e costumes), neste último país existem 455 habitantes por km2 e em Portugal 112 habitantes por km2.


A Índia é a maior democracia do mundo e, para além das duas línguas oficiais, são reconhecidos 22 idiomas e alguns dialetos locais, o que causa inúmeros constrangimentos. Imaginemos que, em Portugal, em cada distrito havia um dialeto e que apesar de muitos saberem falar uma língua comum (português), outros tantos não sabiam. Conseguem imaginar os problemas que isso poderia trazer? Tive a oportunidade de falar com um colega indiano que referiu que uma das grandes consequências da existência de tantos idiomas era a dificuldade na comunicação entre médicos e pacientes e, por isso, a falta de tradutores nos hospitais era também um grande inconveniente.


Para além desta questão, durante a viagem pude, precisamente, ficar a conhecer um hospital e lembro-me de dizer a uma colega médica que viajava comigo: “Joana, se porventura ficar doente, quero que cuides de mim porque não quero vir para o hospital”. A falta de condições, a sujidade e a escassez de meios eram notórios. Todos sabemos isto, mas viver a situação é diferente. Estar naquele local e sentir o cheiro, ver em primeira mão a desorganização e a pouca higiene fizeram-me sentir grata por ser portuguesa.


E as longas viagens de autocarro? Cada viagem de autocarro significava uma entrada numa montanha russa. O conceito de passadeiras é-lhes absolutamente desconhecido e o respeito pelas regras de trânsito só existia quando estávamos parados. Ultrapassámos pela esquerda, ultrapassámos pela direita e ainda fomos em contramão, só porque o motorista queria evitar uma fila de trânsito de duas horas – o habitual.


Durante essas viagens, o lixo nas ruas era a paisagem constante. A falta de saneamento básico, a violência contra a mulher (Nas palavras da escritora Arundhati Roy, “Na Índia, é mais seguro ser uma vaca do que ser uma mulher) e a fome eram (e são) problemas bem visíveis!


No meio da desordem, onde encontrei a paixão pela Índia?


Logo no primeiro dia conheci o Templo de Akshardham, o maior templo hindu do mundo. A receção foi muito calorosa e a espiritualidade e tranquilidade que se sentiam naquele lugar contrastavam com o caos que se via nas ruas.


As pessoas são simples e aproveitam o presente. Às vezes, aproveitam tanto que pensam em ganhar dinheiro apenas para o próprio dia. Gostam de receber e aprender o que lhes podemos ensinar. O contraste de cores impera nos mercados. Os aromas e o calor tornam a atmosfera viva e exótica. Viver a Índia é viver com intensidade e adrenalina , só assim se vive realmente, creio eu. Os indianos acreditam que a paz está no interior de cada um. E no meio da pandemia que vivemos, diria que eles não podiam estar mais certos. É agora, nas nossas casas e atentos às nossas emoções, que encontramos a criatividade, a paz e a coragem para o que ainda há de vir.


De facto, quero acreditar que há de ficar tudo bem (todos sabemos que depois da tempestade vem a bonança), mas, sejamos realistas, agora não está tudo bem e há países em desenvolvimento, como a Índia, que terão dificuldades acrescidas ao longo deste processo.


A Índia conta com mais de 8000 casos (dados referentes a 13 de abril de 2020). Num artigo de opinião do The New York Times, o economista e epidemiologista Ramanan Laxminarayan, vice-presidente para a Investigação e Políticas da Fundação de Saúde Pública da Índia, admitiu, citando “estimativas iniciais”, que entre 300 e 500 milhões de indianos pudessem vir a ficar infetados até ao final de julho.


Atendendo ao que relatei sobre a minha experiência na Índia e passando agora a factos, vejamos:


- Quanto à fome, segundo o Índice Global da Fome , a Índia ocupa a 102ª  posição dos 117 países qualificados, sendo o 117º o caso mais grave (República Centro – Africana).  Entre 0 e 50, a Índia tem uma pontuação de 30,3, sofrendo nível de fome sério.


- Relativamente ao saneamento básico, segundo o relatório do Programa Conjunto de Monitoramento (JMP) da OMS e da UNICEF “Progress on drinking water, sanitation and hygiene: 2000-2017: Special focus on inequalities”, 348 milhões de pessoas defecam a céu aberto (dados relativos a 2017). Várias doenças estão relacionadas com a água contaminada e a falta de cuidados de higiene.


- Numa breve comparação entre a China e Índia (as duas economias com maior crescimento nos últimos anos), feita pela Economist citando dados da OMS, a conclusão foi a seguinte: enquanto os chineses conseguem ter em média 18 médicos e 42 camas de hospital por dez mil pessoas, a Índia tem, para a mesma quantidade de doentes, 8 médicos e 7 camas. Acredita-se que existam apenas cerca de 20 mil ventiladores por todo o país, o que não chega nem para 0.5% da população.


A preparação do país para lidar com esta pandemia é extremamente preocupante. E para além destes fatores, existe o fator “caos”, que é completamente assustador – Como poderá um país manter 1,3 mil milhões de pessoas em casa?


No dia 24 de Março, o primeiro-ministro Narendra Modi ordenou como medida preventiva contra a pandemia uma quarentena nacional de 21 dias, sendo que o confinamento já foi estendido até 3 de maio. Tal como referi, para muitos trabalhadores indianos, o trabalho de hoje não paga as refeições de amanhã, e, por isso, ser obrigado a ficar em casa significa não ter dinheiro para sustentar a família.


Segundo o jornal The Guardian, o confinamento levou ao maior êxodo rural desde a independência. Para compreendermos esta situação, precisamos de perceber a questão da migração na Índia. Para tal, é necessário conhecer a geografia e a disparidade económica. No caso de Delhi, Punjab e Haryana, a maioria dos migrantes é de Uttar Pradesh e Bihar.

Em Delhi, após o anúncio da restrição de movimentação devido à falta de trabalho e alimentos, os migrantes quiseram regressar ao seu estado de origem, sendo que a distância varia entre 200 e 1000 km para a maioria deles. Os agricultores de Punjab empregam os migrantes de Bihar para trabalhar nos seus campos. Apesar de, muitas vezes, serem proprietários de terras em Bihar, esses migrantes são forçados a trabalhar em Punjab por culpa as inundações anuais em Bihar, entre várias outras razões. Agora, a maioria dos migrantes pretende regressar ao seu local de origem por falta de trabalho. Como consequência, o estado de Punjab está a enfrentar neste momento o problema da perda de mão de obra para a colheita e, se o confinamento se prolongar, a fome poderá agravar-se.


Existe o fator “caos”, que é completamente assustador – Como poderá um país manter 1,3 mil milhões de pessoas em casa?

Por outro lado, no primeiro dia de confinamento, a 25 de março, o Governo de Delhi foi rápido a anunciar que aumentaria a quantidade de alimentos subsidiados sob a Lei Nacional de Segurança Alimentar, para distribuir pelos mais pobres. O Governo permite, assim, que aqueles que até então não tinham cartões de racionamento, solicitem-no agora para enfrentar esta crise. Contudo, os cartões de racionamento não estão a chegar a todos aqueles que precisam porque as listas de racionamento em Delhi, como na maioria dos outros estados, são baseadas nos Censos de 2011 e a população já cresceu desde então. Além disso, os migrantes já têm um cartão de racionamento do seu estado de origem, o que leva a que o Governo em Delhi não esteja disposto a fornecer outro, uma vez que é muito provável que as pessoas possam retirar daí uma dupla vantagem.


O Governo de Delhi forneceu agora um link para facilitar a solicitação do cartão, mas a maioria dos migrantes tem um baixo nível de escolaridade e muitos desconhecem o processo que está a ser aplicado, portanto dificilmente conseguirão requerê-lo. Enquanto o Governo tenta resolver esta questão, milhares de pessoas permanecem em filas intermináveis para conseguirem alguns alimentos, correndo sérios riscos de se infetar com covid-19, ao passo que outras tantas estão a viver uma situação grave de fome.


Este é o cenário para uma larga fatia da população indiana: Se não morrem do vírus, morrem à fome.


Os migrantes estão com muito medo. Alguns afirmam que se for a hora de morrer, preferem morrer junto da sua família, sendo essa outra das razões que explica a vontade de regressar ao estado de origem.


Além do mau funcionamento do sistema de racionamento, para obrigar as pessoas a ficar em casa, as autoridades recorreram à violência física, desenharam círculos com giz no chão para que cada pessoa ficasse dentro desse círculo de forma a manter a distância social, ordenaram a realização de exercícios físicos, como agachamentos e flexões, entre outras práticas agressivas.


Entristece-me ver este país que recordo com muito carinho chegar a este ponto. Já não sei se o problema é o vírus ou as consequências das medidas tomadas para travá-lo.


No meio da confusão, há que referir um aspeto positivo: “Nas cidades de Mumbai, Pune e Ahmedabad, os níveis médios de dióxido de azoto caíram entre 40 a 50 por cento por comparação aos anos de 2018 e 2019.” (Fonte: RTP, 1 de abril de 2020).


Na minha perspetiva, as epidemias não se gerem, anteveem-se. A sua prevenção começa desde logo por resolver problemas como o saneamento básico, o acesso a água potável e a pobreza extrema. No entanto, como refere Nicholas Kristof, colunista do The New York Times, na série Inside Bill’s Brain, “As coisas que ocorrem diariamente não são notícia. Há uma luta pelas atenções no mundo do jornalismo. Cobrir a saúde global não é uma boa forma de atrair atenções.”.


De facto, ouvir falar sobre a fome ou a falta de cuidados de saúde na Índia (um problema diário), não me parece apelativo. Contudo, hoje, basta ligarmos a televisão para ouvirmos falar da saúde global – o que é irónico! O que importa retirar daqui é que não é só hoje que a saúde é relevante. Não é só este vírus que tem de ser combatido (não querendo retirar-lhe a devida importância). Precisamos de aprender com os erros e preparar o mundo para uma futura pandemia. Os problemas diários dos países em desenvolvimento não devem nem podem cair no esquecimento. O mundo tem hoje de concentrar os esforços na resolução de problemas como a falta de saneamento básico e a fome.