“Deal!”


Crónica de Beatriz Viana

Estudante de Economia na Faculdade de Economia do Porto

Todos temos as nossas amizades mais próximas. Aqueles amigos que entram em nossa casa, tiram os sapatos e servem-se de água fresca, sem que nos tenhamos sequer de levantar os pés do sofá. Aqueles amigos que alinham sempre no fino depois do jantar, porque “desta vez fiquei eu a dever”; aqueles amigos com quem já nem se divide a gasolina e aqueles que, quando encontramos no aniversário da Maria, pensamos “aquele não era o meu casaco de ganga?”. Três ou quatro almas iluminadas, em sintonia perfeita, que conhecemos nos tempos do aparelho e que gostam tanto de nós que lhes confiamos cegamente os nossos segredos, preocupações e paixões momentâneas, pois tudo se transforma em riso, lágrima ou lágrima de riso.


Depois do círculo fácil e descomplicado, entra o igualmente adorado grupo dos sete ou dez. Aquele grupo com quem não estamos todos os dias, que não ouve a mesma música e nem aguenta falar de política, mas que reunido arrebata qualquer serão. Combinar planos por unanimidade com este grupo é tarefa árdua, com uma série infindável de critérios a ter em conta: a Benedita trabalha às sextas, o Pedro é vegetariano, o Francisco já não namora com a Teresa (sentar em pontas opostas!) e a Mafalda está a poupar para o carro. Portanto, tem de ser baratinho (alguém com casa livre?).


Segue-se o retrato das negociações da União Europeia, jovem de 20 anos que (só) quer ir jantar fora.


Duraram 91 horas, aproximadamente 5 dias, as reuniões para o estabelecimento do Fundo De Recuperação Europeu, assim como os planos iniciados na segunda feira, mas que só ficaram fechados 2 horas antes de todos saírem. Se consensos de 10 GenZ’s são casos raros, o facto da reunião da EU-27 ter tido um desfecho em tempo útil é louvável. 750 mil milhões de euros, 390 mil milhões a fundo perdido em subvenções e 45 mil milhões para Portugal. Os chefes de Estado tweetam as novidades, com espaço para tensões nas entrelinhas.


Fica decidido: jantar pizza no sábado às 21h, 10€ por pessoa (afinal não há bebida à discrição, só por 15€), todos contribuem com 5€ para o presente de aniversário da Mafalda, menos o João, a Maria, a Ana e o Afonso, que descontam os 5€ no total do jantar.

@amafalda98 “ que bom finalmente jantarmos todos! Mas 10€ e pizza com ananás?”


Conhecemos bem os supostos culpados desta difícil decisão – os frugais do grupo. O João, a Maria, a Ana e o Afonso, que trabalharam durante o ano para poupar para os festivais de verão e não estão para esbanjar 10€ em rodízio de pizza (ainda por cima deixaram o glúten e a lactose!), pedir finos à balda (vieram de carro, que compensa mais do que Uber) e ainda dividir a conta por todos?


Como se já não bastassem os constrangimentos económicos, apareceram entraves ao Estado de Direito do grupo: o Martim recusa-se a jantar na mesma mesa que o Tomás, depois de saber que ele retweetou André Ventura.


Teria sido mais fácil combinar o jantar com aqueles 4 amigos síncronos que estiveram no génese da nossa adolescência. E, mesmo no grupo dos 10, se algum quiser sair da conversa do Whatsapp, está no seu direito.


Fazendo zoom na escala de complicações, seria também mais acessível fechar acordos europeus, se os interesses comuns estivessem permanentemente alinhados com os nacionais. Mas, tal como o círculo de amigos alarga e evolui, também a União Europeia já não é definida pelos 5 países fundadores- agora conversa a 27. A pluralidade dos Estados, as identidades distintas e a força conjunta do mercado e espaço comuns criam valor e afirmam o continente como potência capaz de ultrapassar adversidades, pandémicas ou não.

Discute-se; Desespera-se; Grita-se; Faz-se queixinhas. No final das contas, sejam 500 ou 390 mil milhões anunciados às 4:31 da manhã, ou 10€ em pizza tropical, sabemos que foi melhor do que termos ficado em casa no sábado à noite, sozinhos e nostálgicos por tempos que não voltam, a ver repetições do Programa da Cristina.